A profecia se realizou

  

“Matam apenas a mim.Voltarei e serei milhões.”

Assim disse antes de ser executado o líder aymara Túpac Katari, 228 anos antes que 2 milhões de bolivianos aprovassem sua nova Constituição e assistissem dias depois à promulgação, diante do povo “e não mais entre quatro paredes”, como discursou o presidente Evo Morales Ayma, um descendente de Túpac Katari.

 

por Marcelo Salles*

 

Primeiro levaram toda a prata que puderam, começando por Potosí. As famílias dos escolhidos para as minas os acompanhavam entoando canções fúnebres – dificilmente voltariam a vê-los. Com a insalubridade, a maioria morria em dez anos com os pulmões enegrecidos e duros feito pedra. A escravização dos indígenas foi sustentada pelo método do terror. Francisco Pizarro, um dos líderes da colonização espanhola, passou à história como um dos maiores facínoras, de que se tem notícia. Uma de suas diversões era apostar com os soldados quem furava mais índios com uma só espadada. A opressão enfrentou a resistência dos povos originários. Os líderes aymaras Túpac Katari e Bartolina Sisa comandaram dois cercos a La Paz, em 1781, com 40 mil guerreiros, e estremeceram o domínio espanhol. Apesar da valentia, o levante foi derrotado.

Os povos se recolheram, mas jamais abandonaram sua cultura e até hoje preservam hábitos e costumes dos ancestrais. Ao contrário de outras regiões, na Bolívia a maioria da população é indígena. Há lugares onde os idiomas aymara, quéchua e guarani são mais falados que o castelhano. Outras rebeliões populares vieram até a independência em 1825. Simon Bolívar liderou a vitória sobre o domínio espanhol e semeou o sonho da Pátria Grande.

 

Queriam privatizar até água da chuva 

A exploração não cessou, porém, nesta terra de imensas riquezas. Simón Patiño, o Magnata do Estanho, chegou a terceiro homem mais rico do planeta na década de 1920. Assim como no Brasil, a Inglaterra passou a principal beneficiária dos recursos naturais bolivianos – depois dividiria o botim com os Estados Unidos. Os sucessivos saques fizeram da Bolívia o país mais pobre da América do Sul. A Revolução de 1952 reacendeu a esperança. As minas de estanho foram nacionalizadas, os hidrocarbonetos. Iniciou-se um projeto de integração nacional, mas não durou muito. A era neoliberal que varreu a América Latina teve início na Bolívia em 1985, quando se pôs em prática todos os ajustes recomendados pelo FMI e Banco Mundial, arruinando a proteção social, privatizando empresas e abrindo terreno para a especulação financeira – a mesma que provocou a atual crise mundial. O representante-mor do neoliberalismo boliviano é oempresário Gonzalo Sanchéz de Lozada, o Goni. Presidente por duas vezes (1993-97 e 2002-03), é membro da Society of the Americas, organizada por David Rockefeller e conhecida como “governo mundial”. É dono da Compañía Minera del Sur em sociedade com o Banco Mundial; e sócio da gigante inglesa Rio Tinto Zinc, maior distribuidora de cobre do mundo, as duas com interesses na Bolívia.

Em apenas um ano (2002 a 2003) a conta bancária de Goni aumentou em 9 milhões de dólares (La Fortuna del Presidente, Andrés Soliz Rada, La Paz, 2004).

Enquanto isso, a maioria dos bolivianos seguia empobrecendo e perdendo emprego. A voracidade dos capitalistas era tanta que em 2000 tentaram privatizar a água (inclusive a da chuva). Houve forte resistência, sobretudo em Cochabamba, e ao custo de dezenas de feridos e um morto se impediu a negociata da empresa Bechel. Victor Hugo Daza, de 17 anos, foi assassinado com um tiro no rosto. Três anos depois, mais de 100 mil pessoas se insurgiram contra Sanchez de Lozada. O estopim foi a entrega do gás natural a preços aviltantes para os Estados Unidos. À frente da rebelião estava o povo organizado de El Alto, que conduziu um cerco de três semanas a La Paz. Nada entrava, nada saía. Começou a faltar água. O governo respondeu com mais violência. Goni atirou as Forças Armadas contra o povo, e deu-se nova tragédia: centenas de feridos e 67 mortos na Guerra do Gás.

Mas os bolivianos estavam decididos: ou saía o presidente ou morriam todos. Em 17 de outubro de 2003, Lozada fugiu e se escondeu em Miami. Hoje é comum encontrar, em cartazes espalhados por muros, postes e sindicatos de La Paz e El Alto, a foto de Goni com a inscrição “Assassino! Extradição Já!”.

 

20 bilhões de dólares em lítio 

Em 25 de janeiro de 2009, 2 milhões, 64 mil e 411 bolivianos (61,43%) votaram SIM e aprovaram a nova Constituição. Duas semanas depois quase 1 milhão de pessoas presenciaram a promulgação, em El Alto, “diante do povo e não mais entre quatro paredes, como antigamente”, disse o presidente Evo Morales Ayma. Em 184 anos de vida republicana, é a primeira vez que: o povo decide sobre sua lei maior; uma Constituição afirma o controle estatal dos recursos naturais, universaliza direitos básicos como luz, água e saneamento, determina que o Estado deve regular todas as etapas da atividade econômica; e reconhece direitos, idiomas, hábitos, costumes, religião, justiça e economia cooperativa dos povos originários.

A consagração do novo texto constitucional ocorre 228 anos depois que Túpac Katari e Bartolina Sisa cercaram La Paz com seus guerreiros. Bartolina foi estuprada, arrastada nua pelas ruas e torturada até a morte com uma coroa de espinhos. Katari teve pés e braços amarrados a quatro cavalos, que correram a toda velocidade em direções opostas até esquartejá-lo. Enviaram seus membros para diferentes partes da Bolívia e expuseram a cabeça em La Paz. Eis o que foi o imperialismo espanhol, ajuda a entender o rei da Espanha mandar Chávez calar a boca, a entender o colunista Ancelmo Góis, do Globo, publicar a nota servil: “ei, ei, ei, Juan Carlos é nosso rei”. Antes de ser executado, Katari profetizou: “Matam apenas a mim, voltarei e serei milhões.”

Ao mesmo tempo em que o povo aprova sua nova Constituição, também se confirma que estão na Bolívia as maiores reservas de lítio do mundo. O metal, fonte de energia limpa, essencial para a indústria automobilística, é usado ainda em componentes eletrônicos, satélites, foguetes e na medicina. As mais de 5 milhões de toneladas do mineral valem 20 bilhões de dólares, sem contar que se pode agregar-lhe valor.

Quis a natureza que o lítio também estivesse em Potosí, há 500 anos invisíveis aos olhos dos colonizadores. Hoje são milhões os bolivianos mais que nunca dispostos a defender suas riquezas e a lutar por sua soberania. Como profetizou Túpac Katari.

 

Marcelo Salles é correspondente de Caros Amigos em La Paz e editor de

Fazendo Media http://www.fazendomedia.com | salles@carosamigos.com.br

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