Contingência e o vôo 447

Por Ricardo Gondim

O mundo está em choque. De novo a contingência mostra sua cara na tragédia do vôo da Air France. Vale lembrar: contingência significa que os acontecimentos não são sempre necessários. Quando ocorre alguma coisa sem uma razão que a explique ou justifique. Contingência gera imprevisto; fatos que escapam à engrenagem da causa e do efeito. Um avião cai porque o mundo é contingente, não porque tenha sido vítima do destino ou de um plano de Deus.

Diz-se no senso comum que as pessoas só morrem quando chega a hora. Caso isso fosse verdadeiro, o destino reuniu em uma aeronave as pessoas que deveriam morrer naquele dia. Isso daria à fatalidade um poder apavorante. Impossível pensar que gente de mais de trinta países entrou no vôo 447 sem saber que obedecia a uma força cega, que determinava aquele como o último dia de suas vidas.

Igualmente, acreditar que Deus permite a queda do avião porque tem algum propósito, soa esquisito. Cada pessoa, com histórias, projetos, sonhos, foi arrancada da existência para que se cumprisse qual objetivo? Um objetivo macro? Isto é, para que a humanidade aprendesse ou se arrependesse? Isso faria com que as biografias fossem descartáveis, desprezíveis. O Divino Oleiro, sem precisar se explicar, afogaria tanta gente para conduzir a macro história para o fim glorioso? Sim? Mesmo que exista esse deus, eu não o quero.

Também, algumas pessoas aceitam que Deus tem um plano para cada morte individual. Verdade, ele é Deus, tem todo o poder e é capaz de reunir, em um só lugar, quem deveria morrer. Mas também é bom. Então todos os passageiros foram eleitos para cumprir qual bem? Satisfaz pensar que o bem de ceifar tantas vidas, mesmo sem nenhum sentido do lado de cá, está garantido na eternidade? (Deus sabe o que faz?!?!) Como explicar tal conceito para pais, filhos e parentes desolados? Todos acorrentados à trágica realidade que lhes roubou de seus queridos.

A ideia de que Deus tem um plano para cada morte se esvazia diante dos números. Um avião caiu, mas o que dizer dos incontáveis acidentes de todos os dias? O que dizer das balas perdidas que aleijam transeuntes? E dos erros médicos ou dos acidentes de trânsito? Recentemente uma senhora de nossa comunidade caiu da laje da casa em construção. Ela fotografava a obra para que a filha ajudasse com as despesas do acabamento. Quebrou a coluna e ficou paraplégica. A última explicação que se poderia dar é que Deus tinha um plano em deixá-la paralítica.

Jesus nunca cogitou o mundo sem contingência. Pelo contrário, não atrelou a queda de uma torre aos desígnios divinos; não disse que a cegueira do homem era consequência causal das ações interiores, dele ou de seus pais; advertiu que os seus discípulos enfrentariam tempestade, aflição e morte.

Contingência é o espaço da liberdade, portanto, da condição humana. Sem contingência nos desumanizaríamos. A consciência do risco de adoecer e da imprevisibilidade da morte súbita é o preço que pagamos por nossa humanidade.

O desastre do avião mostra a inutilidade de pensar que o exercício correto da religião e a capacidade tecnológica mais excelente sejam suficientes para anular a contingência. Nossa vida é imprecisa e efêmera. Portanto, vivamos intensamente. Cada instante pode ser o último – Carpe Diem!

Soli Deo Gloria

http://www.ricardogondim.com.br

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1 Comentário

  1. Emiliano M said,

    16 de junho de 2009 às 19:00

    hummm….

    Lá na IBAB rólam muitas conversas sobre o desenrolar da história, a teodicéia e o papel de Deus e da fé Cristã nisso tudo. É interessantissimo e por vezes bastante edificante!

    Cá eu, estou convencido de que “contingência” é a palavra que teologos usam quando querem dizer “acaso”. Pois sabem que muitos crentes morrem de medo do acaso. Mas o negócio é que muitos eventos não podem ser racionalizados numa ‘vontade divina’. O próprio Salomão ‘sacou’ isso e viu que algumas coisas simplesmente aconteciam por acaso: “…o tempo e o acaso afetam a todos” (Eclesiastes 9:11).

    Particularmente creio que uma criação que seja limitada (portanto diferente de Deus) e verdadeiramente livre esteja, necessariamente sujeita a contingência (ao acaso).

    Claro, essa é uma resposta teologica que não ajuda em absolutamete nada quem está sofrendo por conta dessa contingência. Por isso é que, creio eu, Deus esteja mais preocupado em estar conosco (e sofrer conosco) do que em explicar e destrinchar o sofrimento.

    ai ai ai… Comentário longo e meio ácido né.Desculpe amiguinho!

    Não sei se já falei mas estou curtindo teu blog!

    Fique na Paz de Cristo


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