O retorno do líder

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O retorno do líder

Por Marcelo Salles, 20.10.2009

Após viajar durante um mês pela Europa, em missão oficial, o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, retomou os trabalhos na Alerj nesta terça-feira, dia 20 de outubro.

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No período em que esteve fora, Freixo não perdeu muito. O mais grave, que também é o mais absurdo, foi a decisão de um desembargador de proibir que a CPI do TCE ouvisse quaisquer testemunhas. A Alerj, em vez de enfrentar a situação, preferiu cruzar os braços: interrompeu-se o trabalho por um período e ninguém votou nada, quando deveriam, nem que fosse em nome da dignidade, votar uma lei proibindo que desembargadores se metessem em comissões que funcionam em outros poderes da República, apesar de esta obviedade já estar prevista na Constituição de 1988.

Enquanto isso, Freixo corria Paris, Roma, Berlim e outras capitais do velho continente. Em parceria com a Anistia Internacional, ele denunciou o crime organizado que se apossou do Rio de Janeiro. Sintomaticamente, foi na Itália onde melhor compreenderam o problema. Bastava que o deputado iniciasse a explicação sobre as “milícias” que alguém o interrompia: “não precisa continuar, isso aí nós já conhecemos, isso é a máfia”.

Máfia que virou “milícia”, termo cuidadosamente escolhido pelas corporações de mídia porque deseduca, despolitiza e impede que o problema seja visto de forma holística. E quando um problema não é compreendido, ele também não é resolvido. Por isso, apesar das prisões de mafiosos e do avanço que foi conseguido, graças à luta da CPI presidida por Marcelo Freixo, hoje há mais favelas dominadas por essas quadrilhas do que um ano atrás. As “milícias” já fazem parte da estrutura de governo, não à toa seus braços no Parlamento eram os partidos oficialistas: DEM e PMDB, as siglas que controlam os governos estadual e municipal do Rio há pelo menos duas décadas.

Daí a importância do giro do deputado Marcelo Freixo pela Europa. É preciso que isso tudo seja denunciado internacionalmente, sob pena de nada ser feito.

Em seu retorno, Freixo se mostrou antenado aos últimos acontecimentos. Em seu pronunciamento na tarde desta terça-feira, dia 20, comentando a recentemente matança na Zona Norte da cidade, que já deixou mais de vinte mortos, ele foi direto ao ponto: “o problema está na política de segurança adotada por este governo”. A polícia que mata muito é também a que morre muito. O helicóptero que chacina também é derrubado.

O professor de história Marcelo Freixo fez uma importante contextualização histórica, mostrando que essa política de segurança vem se repetindo desde quando a polícia foi criada, há duzentos anos. Inicialmente o objetivo era proteger a família real dos escravos, dos negros, dos pobres. “Hoje ela serve aos mesmos propósitos, ainda protege a Casa Grande”. A mão pesada do Estado recai, principalmente, contra aqueles que não têm lugar no chamado mercado de trabalho.

E foi além. Criticou a construção de muros nas favelas, mais uma iniciativa segregadora do governo de Sérgio Cabral, que vai na contramão da história, como escancara o exemplo de Berlim. No que sobrou do muro, lá, conta Freixo, foi estampado: “Ainda há muitos muros a serem derrubados”.

É com essa envergadura moral que Marcelo Freixo já havia colocado a Assembléia Legislativa no centro dos debates. A Casa, antes apagada, voltou a ter o protagonismo. Primeiro desvendou o bolsa-fraude, em que milhões de reais do dinheiro público eram escoados por pilantras de terno e gravata. Depois enfrentou a máfia das “milícias” e todo seu poderio econômico, político e midiático. Pouco antes de viajar liderou, na Alerj, o movimento que derrubou a lei de criminalização do Funk e aprovou outra que reconhece o movimento como manifestação cultural.

Mas o mais interessante no discurso de Marcelo Freixo foi a gana, a fibra, a disposição, a paixão com que ele disse isso tudo. Freixo não é mais um deputado daqueles que sobem à Tribuna e repetem meia dúzia de palavras decoradas, ou simplesmente aqueles que lêem um pedaço de papel. Tampouco se encaixa no grupo dos eloqüentes, dos mais variados tipos e timbres, a soldo do capitalismo. Não. O deputado estadual Marcelo Freixo é um dos poucos, raríssimo exemplo de parlamentar que coloca sua voz, seu mandato e, se preciso for, sua própria vida a serviço do povo do Rio de Janeiro.

Se hoje a Alerj tem um líder, seu nome é Marcelo Freixo. Um líder que se define pela forma como se coloca para a sociedade, e também pela forma com que se relaciona com sua equipe. Enquanto muitos deputados são autoritários no dia-a-dia, Marcelo é respeitador e busca o entendimento. Saber ouvir é uma das grandes virtudes de um líder. Assim, ele consegue duas vitórias: prova que é possível fazer uma outra política e constitui uma equipe motivada, orgânica, vinculada aos movimentos sociais. Gente que acredita no que está fazendo e compartilha do seu desejo de luta por uma cidade mais justa. Como disse Tolstói em “Guerra e Paz”, esse elemento subjetivo é o que faz a diferença, mesmo quando se está em menor número numa disputa.

Marcelo, a cidade se ilumina com o seu retorno. Sejam bem-vindo de volta!

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