Enchentes na Baixada – Apagão de vida

chuva-enchenteBaixada-FabioMotta-091112_tl

Foto de Fabio Motta

“Sim, por aquele leito fundo haveria de cursar um rio,fluviando até o infinito mar. As águas haveriam de nutrir as muitas sedes, confeitar peixes e terras. Por ali viajariam esperanças, incumpridos sonhos. E seria o parto da terra, do lugar onde os homens guardariam, de novo, suas vidas(…) O rio limparia a terra, cariciando suas feridas”.

[Mia Couto, em Terra Sonâmbula, págs.85-86]

O apagão, infelizmente, não é só no setor elétrico. Décadas de ausência de políticas públicas em planejamento urbano, habitação popular e meio ambiente são as principais causas das recorrentes enchentes que, todo ano, sofre a Baixada Fluminense. Neste momento, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo e outros municípios da Baixada têm diversas áreas com desabamentos, milhares de pessoas desabrigadas, em cima dos tetos de suas casas ilhadas e, até agora, com três mortos.

Não dá mais para ouvir setores da imprensa e governos culparem o clima e a população que mora à beira de rios como agentes de suas tragédias. É sabido que a Baixada Fluminense, como o próprio nome diz, é uma região que tem boa parte de suas terras abaixo do nível do mar e recebe as águas que escoam da Região Serrana, além de, naturalmente, as margens de seus rios sofrerem constantes inundações.

Não dá mais para ver governos e sociedade tratarem os desabrigados de forma precária em escolas ou galpões, com cestas básicas, roupas usadas e, assim que o noticiário conseguir a próxima desgraça que atraia seus vorazes consumidores, estas pessoas montarão novos barracos em áreas tão degradadas ou pior que a anterior.

Baixada As políticas de pavimentação eleitoreira (capeamento asfáltico) de ruas e avenidas também contribuem para a diminuição do escoamento das águas, enchentes, desabamentos e elevação das temperaturas médias. Além de necessitar de um constante e custoso reparo pela sua rápida degradação.

A falta de planejamento urbano dificulta o diagnóstico do déficit habitacional na região a partir de um estudo da estrutura geológica dos solos.  É insignificante, à luz da necessidade, a aplicação de recursos municipais, estadual e federal com programas de habitação popular e sustentável. Soma-se a isso a falta de uma política integrada da região – e dentro dos próprios municípios – de cuidado com a restauração e preservação das matas ciliares nas margens dos principais rios da Baixada. A imediata criação – tanto pelo estado, quanto pelos municípios da Baixada – de órgãos de monitoramento das encostas e das margens de rios é urgente. A preservação do meio ambiente não somente diminuiria – e muito! – as consequências das chuvas, mas reduziria os investimentos em programas de despoluição e geraria maior qualidade de vida para a população do entorno.

É preciso que governos e a população tenham verdadeiro arrependimento: não dá mais para construirmos cidades que ceifam vidas, destroem a natureza, tratam a cultura com migalhas do orçamento, cada vez mais pioram seus serviços de saúde, educação, transporte e segurança pública. E mascaram esta realidade com asfalto, tintas, obras de praças e retoques milionários nos centros urbanos, enquanto que passamos indiferentes pelos meninos e meninas nos sinais, que clamam por vida – e vida com dignidade, justiça e paz.

Fabio Pereira

Anúncios

24 Comentários

  1. Débora Fontes said,

    12 de novembro de 2009 às 21:59

    Excelente Fabio, resumiu bem o que se passa na nossa baixada, abraço !

  2. Camila Barros said,

    12 de novembro de 2009 às 22:24

    Sábias palavras Fábio…
    Gostei muito do título.

  3. soraia said,

    12 de novembro de 2009 às 22:25

    PROBLEMA QUE BEM ROLANDO DE TEMPO EM TEMPOS, E NINGUÉM RESOLVE,QUEM ESTÁ SE IMPORTANDO COM A CLASSE MAIS POBRE, AQUELA QUE SUSTENTA A PIRAMIDE,POIS É GOVERNANTES SEM ESSA BASE,VCS,NÃO CONSEGUIRIAM ALCANSAR O TOPO. PARE.PENSE.! VALE Á PENA SER TÃO PROMISCO,COM AS PESSOAS. ESSE PROBLEMA SE RESOLVE A LONGO PRAZO, COM UM POUICO DE AMOR AO PROXIMO.
    DA VIDA FAÇA DELA O MELHOR PARA VOCÊ É PARA OS OUTROS TAMBÉM…

  4. Aline Zeeberg said,

    12 de novembro de 2009 às 23:06

    Bem, pois é, e quem paga o preço disso geralmente são as pessoas, não os danos materiais.
    É a população mais vuneráveis, as que não tem infra-estrutura, as que estão mais susceptíveis às doenças, ou seja, confirma mais uma vez a desigualdade social.
    Pessoas, dá pra acreditar!? o0

  5. Rita said,

    13 de novembro de 2009 às 12:39

    é bom saber que existem pessoas como vc que realmente estão preocupadas com a populaçao menos favorecida, obrigada por nos oferecer esse olhar inteligente, crítico e desvinculado de interesses escusos.

  6. Edson Amaro said,

    13 de novembro de 2009 às 18:37

    Todos os anos o filme se repete. E, embora o governo federal arranje dinheiro para uma obra faraônica como a transposição do São Francisco, que só vai beneficiar os latifundiáros que produzem frutas e camarão para exportação, a fim de manter positiva a balança comercial e acumular divisas, nunca se pensa em obras que evitem essas enchentes. Já se sabe as áreas que alagam todos os anos. Por que não fazer um urbanismo decente na Baixada?

  7. Raquel giffoni said,

    13 de novembro de 2009 às 23:11

    Não conhecia seu Blog Fábio, gostei muito. É realmente desanimador quando vemos apenas discursos “tecnicos” ( mas carregados de uma política escamoteada) dizendo que a culpa é do morador de encostas ou de regiões propícias ao alagamento, é muito triste ouvir: “a defesa civil já havia avisado aos moradores…”. Mas seu texto traz esperança ao colocar em pauta a injustiça ambiental a que estes moradores são sistematicamente submetidos. Só a partir deste olhar iremos as raízes do problema! Divulgarei!
    Abraços

  8. Ingrid Gründig said,

    13 de novembro de 2009 às 23:25

    Adorei o texto, certamente o governo defeca e anda para a sociedade.

  9. Tamaralice said,

    14 de novembro de 2009 às 1:50

    O pior de tudo é que as emissoras filmam, tiram foto, criticam o governo, sendo todos eles “farinha do mesmo saco” o nível da água diminui e a baixada é esquecida novamente, como se nada estivesse acontecido.

  10. 14 de novembro de 2009 às 9:20

    […] saneamento básico, habitação, saúde e meio ambiente. Como disse o Fábio Pereira em seu post mais recente: ” …não dá mais para construirmos cidades que ceifam vidas, destroem a natureza, […]

  11. 14 de novembro de 2009 às 21:07

    Carece de poesia:

    “Estas casas não foram destruídas. Estas casas morreram. […] Uma casa morre, se não é habitada com amor.” Mia Couto

  12. Phellipe Marcel said,

    15 de novembro de 2009 às 1:19

    Você pediu, vim aqui. Concordo com você. E a expressão que você repetiu três vezes neste texto (se não perdi a conta) – “não dá mais” – é um enunciado-base. Definitivamente não dá mais para ouvirmos as mesmas falácias, principalmente pelos meios de comunicação. Mas como bem sabemos, faz parte da lógica do Capital atribuir ao indivíduo o que é de responsabilidade coletiva, desonerando o público daquilo que foi prejuízo privado.

    As vidas se apagam tanto nessa perspectiva… Sei que é meio longo, mas acho que vale a pena ler uma passagem de João Cabral de Melo Neto (livro O Cão sem Plumas), aproveitando que você já começou as citações literárias:

    “Entre a paisagem
    (fluía)
    de homens plantados na lama;
    de casas de lama
    plantadas em ilhas
    coaguladas na lama;
    paisagem de anfíbios
    de lama e lama

    Como o rio
    aqueles homens
    são como cães sem plumas
    (um cão sem plumas
    é mais
    que um cão saqueado;
    é mais
    que um cão assassinado.

    Um cão sem plumas
    é quando uma árvore sem voz.
    É quando de um pássaro
    suas raízes no ar.
    É quando a alguma coisa
    roem tão fundo
    até o que não tem).”

    Ficam(os) cães sem plumas. Ficam(os) – na lama molenga, na água barrenta, na sujeira detrítica – sem terra, sem chão, sem pé, sem luz, sem sem. É o cão.

    Abraço e parabéns pelo texto.

  13. 15 de novembro de 2009 às 12:09

    Excelente texto, Fábio!
    Excelente também a citação que o Phellipe Marcel fez, de João Cabral. Me lembrou o depoimento de uma idosa, afetada pelas enchentes, nesse vídeo:

    Realmente o buraco é “mais em cima”. Quando não se culpa o clima e a população que mora à beira de rios, se culpa o outro. É um absurdo o prefeito da cidade jogar a culpa no Estado, e vice versa. Enquanto nossos governantes não pararem com a intriga barata e não governarem juntos pela população, não teremos avanços significativos e o mais fraco, no caso o povo, sempre soferá com a ausência de políticas públicas e com toda desgraça que poderá “chover” em cima de todos.
    Um abraço!

  14. Danielle Lins said,

    15 de novembro de 2009 às 18:00

    O Título é uma síntese perfeita do problema!
    Texto brilhante retrata de fato o caos que uma cidade rica como a nossa Duque de Caxias está fadada em função: da corrupção, total falta de interesse político e descaso com o ser humano daqueles que a governam e administram. O pior é saber que, esses mesmos picaretas que ocasionam tantas desgraças, são aqueles que com toda a demagogia e falta de ética culpam fenômenos naturais, como a chuva, por problemas gerados por eles próprios que, ao invés de aplicar o dinheiro do povo em prol deste, fazem uso para fins sórdidos.
    O que causa mais revolta também é vê-los tirando proveito político da situação ao visitar (quando se dão o trabalho!) os desabrigados com falsa cara de tristeza, com promessas nunca cumpridas e com assistencialismo barato! Enfim, entristece saber que geralmente eles convencem aos humildes de que toda a desgraça que enfrentam é fruto da obra da natureza e da “vontade de Deus” e não da incompetência, corrupção e desinteresse deles.
    Haja visto que, não cuidam, zelam, projetam e executam políticas públicas voltadas para as reais necessidades da cidade(meio ambiente, habitação, saúde, educação, etc).
    Cabe lembrar à Prefeitura Municipal de Duque de Caxias que não são palmeiras enfeitando o centro da cidade que fazem contenção de barreira e impedem o desabamento de casas e morte de pessoas! Chega de política de estética, aliás, também precariamente realizada. Nossa cidade precisa de política HUMANA, pois, como canta Caetano: “…gente quer prosseguir, quer durar, quer crescer, gente quer luzir…”
    Lindo texto Fabio!
    Que a luz dele possa irradiar a raiz do problema das enchentes à mente do nosso povo que hoje, chora por tudo que perdeu, pela vida dos que se foram, mas, lá no fundo não entendem que, todas essas mazelas são fruto dos votos que depositaram nas urnas!! Chega de governantes que fazem de nossa cidade como fonte de enriquecimento ilícito e de cidade dormitório, tendo em vista que, muitos sequer moram aqui de fato, talvez justamente pra ficar longe do caos que eles mesmos ocasionam.
    Abraço fraterno! E lutemos para dias melhores para nossa cidade!!

  15. Danielle Lins said,

    15 de novembro de 2009 às 18:06

    DIga-se *Contenção e barreira. Rsrsrs Abraço fraterno!

  16. Pierre fernandes said,

    17 de novembro de 2009 às 11:25

    é como visto e bem falado a histótia se repete, e a nosa sensebilidade vai sendo perdida !!! quando isso se torna algo comum e passa a ser indiferente , como se isso fosse a dinamica natural da vida , temos que abrir nossos olhos e ser mais proativos.
    vlw fábio parabéns pelo texto fique com Deus .

  17. 18 de novembro de 2009 às 19:43

    PARABÉNS PELO BELÍSSIMO TEXTO, FAZES O PAPEL DA MIDIA CORROMPIDA QUE SE NEGA, A NOTICIAR OS FATOS CRUEIS DE NOSSA SOCIEDADE, E MOSTRAM APENAS , COMO VC BEM FALOU AS MASCARAS (ALFALTO) DESTA NOSSA DESUMANA CIVILIZAÇÃO.;

    • Paulo500 ROKERO ROK said,

      19 de março de 2010 às 11:14

      Olha pessoal vcs tem quantos anos em meninas, eu tenho? 20!!!!!!!…

  18. Gabriela said,

    5 de janeiro de 2010 às 12:06

    Nossa, realmente o texto nos remete a dura realidade da Baixada em dias de chuva e nos faz mentalizar a seguinte pergunta:
    -Até quando?
    Acho que o semblante das vítimas retratam , em suma, o grande descaso com a população duque caxiense e das demais localidades da Baixada. Infelizmente, só são tomadas medidas imediatista e “tapeadoras”, quando a proporção dos fatos fogem ao nosso alcance e quando tragédias acontecem.
    Genial seu texto! Precisa ser publicado em um veículo mais acessado pelas pessoas!

  19. 14 de janeiro de 2010 às 1:24

    “Sim, por aquele leito fundo haveria de cursar um rio, fluviando até o infinito mar. As águas haveriam de nutrir as muitas sedes, confeitar peixes e terras. Por ali viajariam esperanças, incumpridos sonhos. E seria o parto da terra, do lugar onde os homens guardariam, de novo, suas vidas(…) O rio limparia a terra, cariciando suas feridas”.

    [Mia Couto, em Terra Sonâmbula, págs.85-86]

  20. 22 de janeiro de 2010 às 1:24

    Salve Fabio!
    De fato, este é um episodio que ainda precisamos superar. Triste é que não vejo nossos governantes se manifestarem em apoio a nada que reverta ou pelo menos melhore a situação. Creio até que eles ainda não aprenderam que nesta vida a “cooperação é tudo”, mas sabe como é, os coronéis gostam é de mandar…
    Cara, preciso te informar que acaba de ganhar um fã. Gostei muito da maneira que você escreve, já nos esbarramos algumas vezes no frescão e por Caxias a fora. Pode ter certeza que contará sempre com os meus comentários por aqui, blogs como este são uma verdadeira fonte primária sobre a nossa Duque de Caxias e a baixada.
    Parabéns pelo excelente trabalho!!!
    Fraternalmente,
    JPR

  21. Ronaldo Occy said,

    26 de janeiro de 2010 às 10:11

    Por isso eu digo em voz alta VOTEM NULO, pois a cada 4 anos entra alguém promtendo o que não vão cumprir, enganar o povo é meta dos políticos, aumentar a boa vida deles é o único objetivo de vereadores, dep. estadual e federal, senadores, prefeitos e governadores

  22. 31 de janeiro de 2010 às 2:13

    “A desgraça de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta” [Platão]

    Se anular, deixando de exercer seu direito e responsabilidade de escolher seus representantes só ajuda a alimentar a corja que se elege nas costas(e as custas) deste tipo de pensamento de que todo mundo é igual, é ladrão, não tem jeito.
    Também é uma lógica comodista, caminho mais fácil. E gente que gosta do caminho mais fácil, geralmente sofre mais as consequências destas escolhas. “A vida é implacável com os displicentes”, disse Ed René Kivitz…
    Mas escolher bem, separar joio do trigo, ler jornal, ver como fulano se comporta diferente de ciclano no parlamento ou governo, apurar, cobrar, reivindicar, dá trabalho.
    Mas fácil mesmo é se anular e buscar resposatas fáceis para problemas complexos e, assim, anulemos o destino de nossa história.

  23. Leni Marques said,

    29 de junho de 2012 às 15:35

    Olá Fabio Pereira, precisei fazer um trabalho de Hidrologia na faculdade, no qual eu curso Geografia e tirei algumas idéias e informações sua, foi de grande valia e obtive uma ótima nota,
    desde já obgda Leni Marques estudante da FEUDUC-Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Duque de Caxias.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: