Deus e a tragédia humana

Ricardo Gondim


Prezado José,

Acabei de ver Baraka, um filme lindíssimo sobre a relação humana com a terra e com o divino; também sobre o vórtice dos processos de morte que imperam ao redor do Globo (mais sobre o filme aqui) Chorei em várias cenas. A palavra Baraka é uma antiga expressão sufi que significa silêncio da bruma (talvez o mesmo silêncio que fez Elias perceber a presença de Deus).

O filme mostra a luta de homens, mulheres e crianças pela sobrevivência, e como são muitas vezes despercebidos os processos de antivida, tão banalizados por toda parte. E sempre a serviço da morte, para destruir a terra e seus habitantes.

Engasguei quando o filme para nas fotografias de duas meninas mortas em holocaustos diferentes – Auschwitz e Camboja. O olhar puro de duas vidas anônimas destruídas sem necessidade, levaram-me a um choro convulsivo; também vazei lágrimas na cena de um guri pedindo esmolas, com um cobertor azul sobre as pernas.

Logo que o filme terminou murmurei em voz alta: o deus que intervém não existe (você se lembra da primeira frase do documentário Ilha das Flores?). Esse deus que esporadicamente vem trazer livramento aos seus eleitos é uma construção ideológica para acalmar as multidões. A tragédia humana, reduzida a mera máquina na linha de produção de cigarro ou automatizada pelo vai e vem do trânsito ou apequenada abaixo de sua dignidade em monturos de lixo, não comporta a ideia de um Deus todo-poderoso. Que deus é esse que acorrentado a um rancor milenar, nada faz pela sorte de homens e mulheres, mas os abandona na sorte mais cruel? A concepção de uma divindade ofendida, que resfolega ódio contra tantas pessoas condenando-as sofrer agruras indescritíveis, é absurda. Precisamos recompor a imagem que fazemos de Deus.

Padre François Varrilon (um francês maravilhoso) afirmou em seu livro “Alegria de Crer e Viver” (infelizmente esgotado): “Por vezes, diz-se: Deus pode tudo! Não, Deus não pode tudo, Deus não pode senão o que pode o Amor. Porque ele não é senão o Amor. E sempre que nós saímos da esfera do amor, enganamo-nos sobre Deus e estamos a ponto de fabricar um qualquer Júpter“.

Preciso dizer-lhe, José, que não precisa ter receio de abandonar esse modelo teológico de compreensão da divindade. Não, não tenha medo! Você pode estar próximo de abandonar um modelo, mas você jamais vai se afastar de Deus. Pelo contrário, depois que assisti ao filme Baraka, meu coração se sensibilizou. Fui desafiado a olhar para a vida com outros parâmetros. Senti no espírito o dever de caminhar por uma senda pouco trilhada, mas que me possibilitará a chance de crescer. Acredito que Deus não deixa que os puros de coração embarquem em canoas furadas. O Espírito há de nos dirigir a novos patamares de relacionamento com o Senhor.

Ao conhecer um Deus que chora, pois a dor do mundo dói nele, nos aproximamos de Jesus. Damos as costas à divindade alheada da vida para entendermos a afirmação bíblica: Deus é amor. Pe. Varrilon precisaria ser mais conhecido, sua percepção sobre o amor de Deus é riquíssima.

Se Deus interviesse para impedir o homem de sofrer, talvez nós pudéssemos dizer, numa primeira análise, que Ele nos ama ao impedir-nos de sofrer. Mas se formos ao fundo das coisas, reconhecemos que isso seria um ato infantil, não seria sério. O que está no centro do ato criador, é o absoluto respeito por uma criatura que deve criar-se a ela mesma, e que não pode fazê-lo sem o risco do sofrimento, independente de pecado que, sem dúvida, vem complicar as coisas. Atrevo-me a considerar em Deus dois níveis de amor. É uma maneira de falar, evidentemente. Um nível inferior, em que Deus intervém para impedir o homem de sofrer. E um nível superior de amor em que Ele respeita absolutamente a criatura que deve criar-se a si mesma… Se Deus intervém, quer no Evangelho, através de milagres, quer em determinadas vidas, por exemplo, através de curas, é porque Ele está presente em nossos humildes começos, ali, onde o nosso desejo é ainda carnal, onde se trata mais de necessidades do que de desejos. Mas é sempre para nos conduzir ao calvário onde não existe nenhuma intervenção. No Calvário, é o silêncio, é a ausência, é nesse momento que o amor se revela em toda a sua profundidade.

Faça um favor à sua alma, invista em seu crescimento. Compre o DVD, desligue os telefones e deixe que Deus use a mensagem do filme para tirar os pedregulhos do seu coraçao. Ah, quase esqueço, o filme Baraka não tem nenhuma narrativa; ninguém fala uma só palavra. O silêncio de Deus perante a cruz se parece com o silêncio de Deus diante das favelas, campos de concentração.

Soli Deo Gloria

 

Fonte: http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=104&sg=0&id=2303

 

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