Não morri pela primeira vez

Não morri pela primeira vez

Ricardo Gondim

A estrada de minha vida foi doce e adstringente em proporções iguais. Ri e chorei, ousei e apanhei com igual intensidade. Amei e odiei como todos os vis mortais. Não ouso reclamar dos afogamentos, dos desgostos, dos embotamentos. Sou vítima e verdugo, infectuoso e réu. Contudo, na metade dos meus cinquenta anos, baqueei.

As decepções se agigantaram no peito e o coração bateu sem ritmo – e, parece, ele nunca mais baterá igual; desilusões que nasceram, muito provavelmente, de olhos idealistas. Não, nunca fui ingênuo. Eu percebia as gambiarras institucionais; enxergava os olhares furtivos de monacais que sagazmente azeitam a máquina eclesiástica como meio de vida; notava as lógicas internas de um edifício doutrinário que não se sustenta diante da imensa tragédia humana. Mas, entusiasmado com minha própria potencialidade, insisti nos quixotismos. Eu não queria ver o mal que me rodeava. Meus olhos se fixavam nas conquistas – Conquistar o quê, meu Deus, se eu próprio não passava de um tolo que nunca se dominou?

As dores se sedimentaram e eu acabei no leito de um hospital. No intento de fazer o bem, ganhei inimigos. No esforço de ser relevante, fiz-me antipático. Descobri que a popularidade cobra um preço alto. Aprendi que o zelo pelo bem termina em patíbulo. Como um bicho selvagem que não se dobra diante do chicote, nunca me acostumei às pedradas. Sofro horrores com a saraivada dos infames. Minha carne vira combustível volátil na fagulha inclemente da mentira.

No leito, sem acesso à abóboda celestial, tomei certas decisões. Na absoluta depuração de ouvir os passos da Senhora da Foice, rabisquei nas tábuas do espírito: “Não sairei daqui o mesmo”. Minhas resoluções não precisam significar nada; elas são minhas, apenas minhas.

Decido distanciar-me completa e totalmente de qualquer debate doutrinário. Não preciso provar coisa alguma. Sem medo, vou caminhar sem carecer de bitolas. Teimoso, eu voltava a desafiar críticos. Mas agora me dou por vencido. Resignado, viro o lado esquerdo da cara para os Curadores da Reta Doutrina. Que eles fiquem com o báculo da ortodoxia. Que se refestelem com a enormidade de suas descobertas espirituais. Sinto que devo marinar a alma com temperos exóticos. Prefiro aprender com prostitutas – elas me precederão no Reino. Às vezes penso em gritar, mas já é tão tarde, meu Deus!

Decido abrir mão de buscar granjear seguidores. Meu caminhar não será comprometido por lisonjas – Quanto mais lisonjeados, mais dificultados de encarar o futuro!

Decido pactuar com quem não teme molduras, não pensa a partir de rótulos e não faz varredura no universo sagrado, que é a alma do próximo. Os purgativos que se encontrem na roda dos puros. Quero mergulhar a cabeça na poesia dos que a moralidade puritana considera insalubre. Não evitarei a genialidade dos maculados pelo crivo provinciano dos novos Torquemadas.

Decido dedicar-me à literatura. Ainda hei de escrever; mas não para salvar o mundo. Acredito que a pena do destro escritor tem o poder de resgatar a mim mesmo enquanto padeço. Insubstancial, vou tentar entender a força do verbo que se faz carne. Rei de mundos quiméricos, não vou necessitar proteger as costas de vampiros emocionais.

Renasço. Sem afetação, engatinho aos cinquenta e seis. Decido enfrentar a nova puberdade em melhores condições, espero. A proverbial energia dos adolescentes me encorajará na fascinante tarefa de me fazer humano na velhice. Peço tão somente que não me prendam em cercaduras, o horizonte teme os meus olhos e eu não cesso de persegui-lo.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim é pastor da Igreja Betesda em São Paulo.

Fonte: http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=71&sg=0&id=2318

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1 Comentário

  1. Moises Verissimo said,

    12 de fevereiro de 2010 às 12:55

    Meus versos
    Meus versos são rudes, são duros, são crus
    Meus versos são rasos, opacos, sem luz
    Não são dadaístas, parnasianos, nem românticos são
    São rotos, amarelos; de um bêbado a canção.
    Meus versos não andaram por um longo caminho e não saudaram velhos amigos;
    Não têm o poder de acordar os homens e fazer dormir as crianças.
    São versos sem prosa, sem rima, nem direitos são
    Mas não são versos qualquer, perturbados, sem paz
    Como alguém chorando a vida, lembrando que o amor dela nunca mais.
    São versos escritos numa terra batida de palmos contados
    Versos que apenas representam homens, mulheres, crianças, todos arrasados.
    Mas não são versos feitos assim, nas coxas deixados
    Num canto de muro, escuro e pichado.
    Não vão pedir desculpas por ser retirante, sobrevivente ou protestante
    Não vão recuar diante da corda, da porta ou do barbante.
    Você tem direito, você se quiser pode dizer: é ruim.
    Mas uma coisa meus versos aprenderam: a morte chega pra Lutero, Macedo, Veríssimo e Gondim


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