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Detentas de penitenciária de BH são aprovadas para curso de Direito

Divulgação / Seds - As detentas do PIEP aprovadas no vestibular do Instituto Metodista Izabela Hendrix

BELO HORIZONTE (28/01/10) – Três detentas do Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto (PIEP), administrado pela Subsecretaria de Administração Prisional (Suapi) da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), acabam de ser aprovadas no vestibular para o curso de Direito do Instituto Metodista Izabela Hendrix. Elas se prepararam durante oito meses com a ajuda de professores da própria escola da unidade prisional. Estefânia de Oliveira e Naiani Lima, respectivamente de 34 e 23 anos, conseguiram bolsas integrais graças ao convênio de parceria estabelecido entre a Seds e a instituição de ensino. Já Caroline de Aguiar, de 22 anos, terá seus estudos custeados pela própria família.

“Fiquei muito feliz, não acreditei! Eu esperava passar, só não pensei que ficaria tão bem colocada.”, diz Estefânia, aprovada em 4º lugar, depois de ter interrompido os estudos por 10 anos. A detenta lembra que concorreu com pessoas que não estão privadas de liberdade, com chance de fazer cursinhos e acesso a diversificados recursos.

O bom resultado foi merecido. Naiani conta que elas tinham os materiais didáticos no alojamento – emprestados da própria biblioteca da unidade – e que estudavam todos os dias. Quando necessário, recorriam às professoras da escola, que tiravam suas dúvidas. Segundo ela, foi no presídio que o desejo de iniciar a graduação veio à tona. “Quando eu era mais nova eu tinha o sonho de fazer faculdade. Depois a vida foi seguindo outros caminhos e o sonho adormeceu. Ele foi ressuscitar aqui dentro”, diz a detenta, que, junto com as duas colegas, concluiu o Ensino Médio na prisão.

Como todo bom vestibulando, elas estavam muito nervosas no dia da prova. Para Naiani, além da tensão com o vestibular, havia a emoção de sair à rua sem uniforme e sem algemas. “A gente foi de calça jeans, blusa branca e tênis. Foi diferente, não teve aquele monte de olhar”. Ela afirma que a emoção de voltar a conviver com pessoas que não estão privadas de liberdade, não as faz esquecer que elas estão detidas em regime fechado, mas é uma motivação a mais para voltar a ser livre. “É um incentivo para querer fazer tudo certo, para voltar a viver em sociedade, de uma forma muito positiva, que é fazendo um curso, encaminhando o futuro”.

Preconceito

Detentas e ex-detentas têm que lidar com o preconceito das pessoas. Caroline diz que entende esse receio inicial e sabe que, mesmo as agentes penitenciárias indo escoltá-las sem uniforme, em algum momento os colegas de classe irão saber que ela é presidiária. Mas ela está segura de que vai saber administrar a situação e manter um bom relacionamento com eles.

Naiani também está consciente do preconceito que pode sofrer, mas concorda que tudo é uma questão de tempo. “Se no começo houver esse tipo de preconceito, depois, me conhecendo melhor, elas vão mudar esse pensamento, com certeza. Sou uma pessoa super tranquila”, afirma. Ela, inclusive, conversou sobre isso com outras detentas que já estão na faculdade e ficou sabendo que muitas pessoas tinham curiosidade em saber como é a vida no presídio e surpreendiam-se positivamente, descobrindo que era melhor do que imaginavam.

Orgulho

As aprovadas estão empolgadas por se tornarem motivo de orgulho para as famílias. Estefânia conta que apesar de não conversar com o ex-marido desde que foi presa, ele manifestou satisfação com o resultado. “Ele disse à nossa filha ter ficado feliz e que quer que ela seja inteligente igual a mim. Achei legal ele ter me colocado como exemplo nessa situação, porque, até então, eu não era exemplo de nada”. Já Naiani pensa, principalmente, na mãe: “amenizou tudo o que a gente está vivendo desde que fui presa. Ter conseguido essa oportunidade deu um conforto. Ela já pode pensar no que eu vou fazer quando sair daqui. Ela tem bons sonhos para mim e eu também tenho bons planos”.

Para a diretora de Atendimento e Ressocialização da PIEP, Ana Cristina Cesário Corrêa, a ajuda da família e o estímulo para que as detentas continuem estudando é fundamental ao sucesso das candidatas e à sua ressocialização. “Quando elas saem para a faculdade é bom para o ego, elas se sentem pessoas de verdade, valorizadas”, afirma Ana Cristina.

Caroline, que sempre teve a faculdade como projeto de vida, concorda com a importância que é começar o curso superior no presídio. “Dá a sensação de que a vida não está parada, estamos dando sequência, porque conhecimento nunca é demais. Nós erramos, mas estamos dispostas a melhorar, a ressocializar, a crescer. É meta de crescimento intelectual e pessoal”, diz.

Mas o maior orgulho parece ser o que as detentas estão sentindo delas mesmas. Naiani conta que aproveita todas as oportunidades que aparecem na unidade, o que, para ela, é uma forma de mudar e preparar o futuro para voltar à sociedade. “Minha história é uma motivação para as pessoas que cometeram um erro tentarem buscar o melhor, virar a vida de alguma forma”, orgulha-se.

Estudo

Em Minas Gerais, 4040 detentos, entre homens e mulheres, cursam os ensinos Fundamental e Médio e outras sete pessoas estão frequentando a faculdade enquanto cumprem as penas.

Na PIEP, detentas de regime fechado ou aberto, desde que comprovem carência socioeconômica, podem se candidatar às bolsas integrais oferecidas pelo Instituto Metodista Izabela Hendrix, que mantém parceria com a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds).

De acordo com a diretora Ana Cristina, esse ano, outras cinco detentas concluíram o Ensino Médio no presídio e, provavelmente, irão tentar o vestibular no próximo semestre. “Para nós é gratificante, porque elas chegam aqui sem esperança, sem vontade para nada, e a gente está conseguindo que, a cada semestre, se formem mais pessoas”.

Fonte: Agência Minas

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