A matança na escola

Chico Alencar e Fabio Pereira

“Um grito ouviu-se em Ramá, de pranto sentido e lamentação: é Raquel que chora seus filhos, e não quer ser consolada, porque eles não existem mais” [Mateus, 2: 18]

A dor indizível e inconsolável das famílias que perderam suas crianças, até há pouco alegres alunos da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio, exige de nós consternada solidariedade. Ter filhas, netos, irmãos, amigas ceifadas no alvorecer da vida é a pior tragédia que pode acontecer, e só o conforto humano e a fé dão forças para seguir sobrevivendo. Perdê-los no espaço sagrado de uma sala de aula, no início da manhã ensolarada, é mais absurdo ainda.
Mas o acontecimento terrível também impõe profunda reflexão. Uma tragédia como esta não é mais um simples crime do cotidiano, e sim uma violência social insana. É difícil reconhecer que os gatilhos exterminadores também foram, de maneira indireta e invisível, apertados por todos os que temos responsabilidade pública. Mas a matança praticada por um indivíduo mentalmente degradado tem também motivações sociais que nos dizem respeito.
O assassino estava com dois revólveres e fartamente municiado porque é frouxo o controle da circulação de armas e munições em nosso país. O armamentismo ilegal é objeto de crescente tráfico, e favorecido também pela cultura importada do ‘cada indivíduo uma arma’.
O criminoso encheu-se de uma ‘missão de terror’ porque os meios de comunicação de massa e de ‘entretenimento’ disseminam serial killers, vídeo-games, filmes e seriados propagadores da violência, da eliminação dos adversários como valor maior, do espetáculo da destruição.
O transtornado, no seu isolamento, afastado de política pública preventiva de saúde mental, cristalizou comportamento mórbido talvez estimulado por fanatismos e pseudo religiosidade sectária, que classifica as pessoas em ‘puras e impuras’.
O matador encontrou facilidades no seu trajeto de morte porque nossas precarizadas escolas públicas já não têm quantitativo de servidores que possa contribuir para maior segurança do cotidiano pedagógico.
O homicida, já condenado, foi produzido, de alguma maneira, também por nossa omissão, por nossa indiferença. Talvez por nossa adesão ao mundo torpe da competição desvairada, da anulação do outro, do desprezo pela dignidade humana. Ambiente civilizatório perverso que muito(a)s educadore(a)s – tantas vezes vítimas dele – e cidadãos lutam por transformar, para que nossas crianças, livres de bullying e repletas de carinho, tenham possibilidade de futuro.
Desejemos, em concordância – que significa literalmente estar alguém no mesmo coração de outrem – com Ariovaldo Ramos: “Precisamos que todo o esforço não seja para, meramente, melhorarmos na vida, mas, para que a vida melhore em nós (…) Que tanto luto não mate a esperança”. Tasso da Silveira (1895/1968), poeta que dá nome à enlutada escola, já reconhecia, profético, que “a hora é de tumulto e incerteza”, mas também de “reiniciação na esperança e promessa de esplendor”. Assim seja!

Chico Alencar é professor de história, escritor e deputado federal (PSOL-RJ)
e
Fabio Pereira é professor de geografia, educador popular, leciona em pré-vestibulares comunitários e assessora os mandatos dos deputados Marcelo Freixo e Chico Alencar

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