Entrevista com o jovem escritor caxiense Jefferson Barbosa

Foto: Fabio Pereira

Jefferson dos Santos Barbosa, 14 anos, é escritor e estudante do 9º ano da Escola Municipal Eulina Pinto de Barros. Recentemente lançou um livro que conta a história do seu bairro, Nossa Senhora do Carmo, em Duque de Caxias. Foi um agradável papo que tive com Jefferson, na Biblioteca Leonel Brizola, dia 11 de maio de 2011, onde ele falou de seus novos projetos, livros, música, ideais, desejos, fé e pessoas. Confira!

Fabio Pereira: Como surgiu a ideia do seu primeiro livro, sobre o resgate da história de seu bairro (Nossa Senhora do Carmo)?

Jefferson Santos: Foi através de uma pesquisa de geografia, da escola, que fiz lá no Instituto Histórico da Câmara de Vereadores. Lá no Instituto, vi uma pessoa falando sobre a história dos bairros e perguntei se tinha algo sobre a história do meu bairro, e ai eles falaram que não tinha. Foi então que questionei o porque não tinha, e eles me responderam que o Instituto não faz a história, ele preserva a história de nossa cidade. Ou seja, alguém, algum escritor, alguma associação tinha que fazer isso. E foi daí que tive a ideia. Imaginei que ninguém queria fazer isso, então eu mesmo fiz. Depois fui na AMANC – Associação de Moradores do Bairro Nossa Senhora do Carmo – e pedi ao Baby (o presidente da associação) uma relação dos moradores mais antigos do bairro, ele me deu e eu fui na casa de cada um, assessorado pelo Instituto Histórico, para saber quais perguntas mais relevantes para a pesquisa e montei o material. Depois de pronto fui procurar o prefeito para que ele soubesse da iniciativa e pedir apoio para publicação, foi quando encontrei a secretária municipal de educação, ela gostou do material e desejou aperfeiçoar. O que aconteceu. Depois disso teve o lançamento e fui para a Patagônia (Argentina), pelo reconhecimento do que fiz, junto com o Colégio Carlos Gomes.

Fabio Pereira: Como foi a recepção do livro pelos seus amigos na escola e no seu bairro?

Jefferson Santos: Quem leu achou legal. A secretária de educação até falou assim: “Não, não foi você que escreveu…”. Ela gostou, tanto que escreveu até uma nota no livro. Os alunos gostaram também, tanto que logo esgotou o livro.

Fabio Pereira: Estou sabendo que você está envolvido em outro novo projeto de escrever um livro. Qual a ideia?

Jefferson Santos: A ideia é tentar chamar atenção, diminuir ou até evitar essa coisa do bullying. Recentemente teve o caso do massacre na escola em Realengo, tem acontecido vários casos e até a secretaria de educação tem projetos para evitar isso. O livro terá uma pequena teoria explicando o que é o bullying e depois uma história bem infanto-juvenil para chamar atenção.

Fabio: Como está o processo de construção desse livro?

Jefferson: Assim, quem está me ajudando muito é a escritora Hellenice Ferreira. E só falta a aprovação da secretaria de educação que, aprovando, manda para a parte de diagramação, arte e publicação.

Qual sua expectativa com esse novo livro?

É atingir o público jovem. Tanto que não terá somente textos, será bem ilustrado para atrair esse perfil de leitores, de adolescentes e jovens, com quem mais acontece o bullying nas escolas. O meu foco é o jovem.

O livro está sendo construído com o que material de pesquisa? Tem casos aqui em Caxias que você presenciou? Existe alguma motivação em particular?

Na verdade, esse livro, com apenas um personagem, que vai encarnar todos os casos de bullying que pesquisei e presenciei. Esse personagem fictício vai se chamar Zeca, em homenagem ao cantor e compositor Zeca Baleiro, que eu admiro muito. O Zeca é um garoto gordo, negro, que é um excelente aluno, mas, com essa situação de deboche e preconceito, que é o bullying, ele vai tendo uma queda em seu rendimento escolar. Ele depois resolve criar um blog, para relatar seu caso, e faz muito sucesso na internet, com milhares de acessos. Pessoas que também sofrem bullying chegam ao site e ajudam o Zeca a superar e também o Zeca ajuda muitas pessoas com esse mesmo problema. Depois desse processo ele resolve escrever um livro sobre sua experiência, que vai se chamar “Bullying: é preciso levar a sério?”

O que você está lendo no momento? Qual livro que mais gostou de ler?

No momento eu estou lendo “Um menino chamado negrinho”, da Hellenice Ferreira, que ela lançou essa semana. Um livro que gostei muito, na verdade não é um livro, é uma coleção, “O homem e a comunicação”, da Ruth Rocha. Meus escritores preferidos: Talita Rebouças e Paulo Coelho.

Como você despertou interesse pela leitura e para escrita?

Eu comecei a gostar de ler através de gibis, especialmente Maurício de Souza, Turma da Mônica e Chico Bento. Gosto muito do Chico Bento porque ele é um personagem nordestino e eu também, daí eu me identifiquei e comecei a ler.

Além de ler e escrever, o que mais te dá prazer em fazer?

Desenhar plantas em casa e cantar. Gosto muito de cantar também, às vezes até componho algumas músicas.

Cantora?

Maria Gadú.

Cantor?

Zeca Baleiro e Caetano Veloso.

Qual a disciplina que mais e menos gosta na escola?

A que eu mais gosto é geografia e a matéria que menos gosto é ciências.

Pelo que você percebe em Duque de Caxias, o que pode melhorar na escola pública?

Os professores não ganham o suficiente de salário, a infra-estrutura da escola é ruim, muitas precisando de reformas.

Profissão que deseja seguir?

Jornalista. Talvez arquiteto. E escritor, como forma de contribuir para uma sociedade melhor.

Foto: Fabio Pereira

Como você acha que os jovens podem participar mais de sua cidade, especialmente de movimentos de transformação?

Os jovens precisam fazer como no período da ditadura: mais passeatas, organização, essa coisa de lutar mais, de político, de debater. Mas também ele pode criar projetos, se envolver com alguma instituição não-governamental e tentar, com isso, mudar esse quadro ruim de Duque de Caxias e em várias outras cidades do Brasil.

Movimento estudantil também é muito importante. É uma forma do jovem se expressar, não saindo da lei, ele tá no pleno direito dele. Já o grêmio estudantil, minha escola não tem e acho que a maioria das escolas públicas não têm. Mas acho muito interessante que tivessem.

O que você avalia que leva a maioria das escolas a não ter grêmio estudantil?

Acho que a direção das escolas não estimulam os alunos, não passam isso pra gente. Os jovens não fazem isso sem um incentivo, sem uma autorização da escola, acho que por medo mesmo, falta conhecimento de seus direitos.

Além dos livros e projetos, me diga um desejo seu.

Participar do Programa do Jô, sou super fã dele!

Tem alguma questão que deseja deixar como recado nesse bate-papo que não conversamos?

Sim. Não falei de meus vários projetos de livro depois desse do buylling, a vida é longa e eu espero que a minha seja também, então posso escrever ainda muitos livros (risos). Tenho projeto de escrever um livro sobre MPB (música popular brasileira). É difícil achar um jovem, na minha idade, que se interesse por MPB. Também gosto de hip-hop e outros ritmos, mas gosto muito de MPB. Despertei esse gosto ouvindo rádio, em especial a Maria Gadú. Também quero escrever um livro que se chamará “Pra ser amor”, um livro romântico mas, ao mesmo tempo, jovem, que fale sobre o romance entre jovens. Esse livro é inspirado em uma música, eu fiquei matutando naquela letra e me veio uma história todinha dentro daquela música. Como começa o amor nas escolas, se existe amor entre jovens, como pode influenciar nos estudos, a coisa da AIDS, da preservação. E, por fim, um outro projeto de livro é o “Minha pequena Pocahontas”, baseado em um conto da Disney. Esse livro será inspirado também na minha namorada, a Letícia, e ela nem sabe, quero fazer uma surpresa.

Você tem religião? Acredita em Deus?

Sim, sou evangélico, creio muito em Jesus. Não tenho nada contra outras religiões, assim como a sexualidade das pessoas, como a postura, acho que as pessoas têm liberdade de escolher sua religião. Mas, para mim, tudo que a gente faz na vida, independente de religião, temos que por Deus na frente para poder dar certo. É o meu pensamento.

Foto: Fabio Pereira

O que significa “por Deus na frente”? Me explique melhor.

É, por exemplo, quando você está em uma situação muito conturbada, quando você tem um problema na sua vida ou quando você tem um projeto e quer que aquilo dê certo. Você para e fala com Deus, em oração. Não é, obrigatoriamente, ir para igreja. Você ler a Bíblia. Daí, através da oração, da leitura da bíblia, você ganha valores, um ânimo, é muito legal isso!

E, esqueci de falar, depois de Deus, eu tive uma ajuda enorme, nada do que eu já produzi seria possível sem ajuda de um grande parceiro, o Baby, um apelido carinhoso do Joel Carvalho, que é presidente da Associação de Moradores do bairro Nossa Senhora do Carmo. Ele me ouviu e me apoiou muito, me incentivou, me estimulou a correr atrás dos meus sonhos, me deu força. E isso não é só comigo, com muitos moradores ele é uma pessoa legal, disposta a ajudar. Também tenho profunda gratidão pela secretária de Educação de Duque de Caxias, a professora Roseli Duarte, que me ajudou muito.

E, como eu estava falando antes, uma frase que gosto muito é do Monteiro Lobato: “Um país se faz com homens e livros”.

Por fim, quero dizer para você que está lendo, siga em frente, não desista dos seus sonhos. Sempre tem algo pra atrapalhar a realização dos nossos sonhos, mas, põe Deus na frente que a gente consegue.

Jefferson no lançamento do seu primeiro livro.

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7 Comentários

  1. ROBSON said,

    17 de maio de 2011 às 18:51

    Muito legal e emocionante o depoimento de um garoto talentoso e antenado.
    Parabéns e que o Brasil continue produzindo jovens promissores como este menino.
    Bela entrevista Fábio!

  2. 18 de maio de 2011 às 10:54

    Parabéns pelo trabalho, Fábio!
    Jefferson é um menino precioso que precisa de nosso apoio e estimulo para seguir em frente com seu brilho e força de vontade.

    Jefferson: Deus te abeçõe sempre!

  3. 18 de maio de 2011 às 16:10

    Muito…… Obrigada a todos os que me apoiam e que Deus me abençoe, pois temos que batalhar por nossos sonhos. batalhem.

  4. heraldo hb said,

    20 de maio de 2011 às 1:25

    Que bom ler estas linhas, cara… Parabéns de novo, Fabio.
    E, Jefferson, continue por aí, cara; com verdade no coração, prazer em buscar conhecimento e se dedicando com afinco, esses seus projetos aí ainda vão iluminar muitas cabeças e corações. 🙂

    Além disso, o texto ainda traz a informação de que a professora Hellenice deu essa moral aê – muito bom! A Hellenice é um figura muuuito especial e dá aquele alívio saber que tem gente assim perto da gente e perto de nossos amigos.
    Abraço a todos!

  5. heraldo hb said,

    20 de maio de 2011 às 1:26

    Ah, e se sair uma segunda edição desse primeiro livro eu quero comprar!!

  6. Edson said,

    20 de maio de 2011 às 12:13

    Fábio Parabéns pela belíssima entrevista !!!!
    Jefferson fico orgulhoso de saber que moro na mesma cidade que vc e que sua consciência de sociedade e participação é um grande exemplo para nossa juventude. Grande Abraço e continue assim.


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