Carta do professor Henrique Reis, do C.E. Barão de Mauá, Xerém, Duque de Caxias

Texto do Professor Henrique Reis do Colégio Estadual Barão de Mauá, Xerém, Duque de Caxias

          Sou professor há mais de 30 anos, 25 no Estado. Nunca vi uma política pública de educação no Estado do Rio, algo que fosse implantado após ter sido discutido exaustivamente com os professores e pedagogos, que ficasse e crescesse no governo seguinte, já que é fundamental à educação dos jovens. O Estado nunca soube o que querer de fato como uma política pública que levasse seus filhos a serem educados, trazidos ao portal do saber que promove a ascensão social em sentido amplo e irrestrito.

          Se houve alguma coisa que pôde ser chamado de política pública, restringiu-se no máximo às escolas centrais, aquelas em que a imprensa sempre recorre quando tem de escrever sobre educação, sobre política pública. Nesses casos, não pode ser chamada senão de maquiagem, de experimentalismo panfletário de alguma ideologia de governo cara-de-pau.

          A responsabilidade desse fracasso é diretamente do governante, é ele que tem de aglutinar gente capacitada (professores, pedagogos, profissionais da educação) para criar e fazer gerir tal política, sem interferência de partidos interessados em lotear a arena pública, como acontece agora em Brasília e certamente nos estados. Indiretamente é de todos nós que votamos. O atual governo do Rio vem com ideias – sim, ideias, e não política pública! – em que se valoriza o prêmio ao professor. Jocosamente assim: “Professor, faz com que esse aluno tire nota boa, que lhe darei 500 reais! Topa?”

          Ora, educação não é competição, mas é lugar de construção paulatina da consciência, erguimento da subjetividade, descoberta das linguagens. Consciência do tamanho de que vou me fazendo. Subjetividade de sujeito, dono do que me pertence, do que faz parte de minhas responsabilidades e alcances, como ser social pensante, falante e habilitado à profissão por que vem o sustento justo meu e dos meus entes queridos. E de minhas linguagens múltiplas, não apenas a que me é imposta pela cultura da ascensão social, mas também aquela com que me apresento à escola nos primeiros dias de minha vida estudantil e que até então me constituiu, a mim e aos meus pais e familiares e vizinhos, e exige respeito, mesmo a frase não tendo todos os “s” da marca de plural, por exemplo, tentando agora trazer à tona aquela questão do “livro do MEC com erros”.

          A escola é de todos, é pública, e não de algum partido, de algum diretor a-coronel -ado. Repetindo: ela é 100% pública, pertence tanto a quem for do asfalto, do palácio, do apartamento, quanto a quem habitar morros, sítios e vales. Ninguém isolado é dono dela, somente todos juntos somos seus donos, dizemos o que queremos que ela faça. Disto surge a política pública.

          Querer colocar, em breves anos, o Rio no topo de algum índice oficial, medidor de sucessos ou fracassos em educação, tirando-o do posto de lanterninha da educação brasileira, é salutar, (“Vêm aí os Jogos Olímpicos, a Copa”, dizem preocupadas algumas pessoas, talvez até envergonhadas de mostrar a ‘casa’ tão desarrumada assim), mas o gestor de tal ousadia terá de passar por dentro das verdades da sala-de-aula, das linguagens que lá de fato rolam, tanto de alunos, quanto de professores. Terá de mexer com o que de mentiroso e ruim as escolas, ano após ano, vêm praticando, como é o caso da atual recuperação, que não recupera ninguém, apenas para citar um exemplo.

          Quando vou a uma festa, me arrumo, perfumo. Quando a escola for à festa, seja a da Copa, das Olimpíadas (tais datas vêm preocupando autoridades), ou à festa em que ela celebra nada mais que seus ganhos consecutivos, batalhados no dia-a-dia de seus trabalhos, também deverá se arrumar, não se esconder envergonhada.  Permitirá que se conheça a força da consciência que ela, engajada em uma verdadeira política pública de educação, terá desenvolvido de si, como sujeito de sua própria história, e não assujeitada à história de outros; como desenvolvida em suas linguagens, sempre tão plurais, testemunhas dela mesma, vigorando-se a cada dia. É sonho? é querer de mais?

          Quem pensar assim, que experimente a educação, a escola à base de prêmios: “Professor, faz isto que lhe dou aquilo!”. Também isto não é um sonho, uma irrealidade?

          Na verdade, acho que um pesadelo, que não vejo a hora de passar.

Henrique dos Reis, Junho de 2011, Rede Estadual em Greve.

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8 Comentários

  1. Jéssica Nonato said,

    22 de setembro de 2011 às 10:26

    Faço da suas minha palavras querido professor Henrique…Em breve espero poder estar na luta com você e outros colegas que também buscam uma educação de qualidade. Que a docência seja reconhecida como profissão!!

  2. Henrique said,

    22 de setembro de 2011 às 11:47

    Obrigado, Jéssica, aluna amorosa, apaixonante por conta da firmeza quanto ao que quer para si, para sua individualidade, para o bem comum. Torço para que nosso Estado encontre alguém que estenda a todos os seus rincões uma legal política pública de educação, discutida com os mestres e pedagogos, cabeças pensantes que não podem simplesmente ser substituídas por “gente de fora”. Estamos na luta para que isto se dê. O lavor é igual ao de joalheiro, que tem de engastar o rubi no anel, e nós, o de marchetar no coração de todos a educação como via múltipla, plural, de realizações do jovem do Rio de Janeiro. Abraços saudosos. Henrique.

  3. Tatiana NEVES said,

    1 de novembro de 2011 às 2:07

    Estudei nesta escola, e o que aprendi no ginásio, me serve de base para qualquer coisa que faça em relação ao aprendizado.Em 1970 este era um excelente colégio e seus professores muitíssimos gabaritados entrosados com as matérias e com todos os alunos.Nós alunos nos dedicávamos muito, e podíamos contar com todos da equipe do colégio.
    Deixo aqui um grande beijos a todos os meus ex-professores para os que estão vivos e para os que já se foram:

    Eliane – Português -maravilhosa professora
    Armando -Matemática
    Teotônio- História
    Arno -meu querido, adorado e grande amigo Desenho
    Sebastião – meu querido e adorado de Artes.
    Gloria -Geografia -maravilhosa professora
    Ciências -que amo muito -desculpe não lembro mais o nome.
    Inglês – Hilton
    Meu querido diretor -Josemar (Fluminense doente)
    A equipe de funcionários e meu professor de educação física que também não lembro o nome.
    Mas todos estão em meu coração.

    Outro excelente professor e grande,grande amigo de todas as horas ,professor Jorge Fortunato do antigo colégio São Jorge, em Duque de Caxias onde estudei também.
    Pessoas maravilhosas como estas jamais,que contribuiram com seus aprendizado ,jamais um aluno poder esquecer.
    Tatiana Neves
    Rio de janeiro
    Ano de 1969 e 1970,1971,1972
    Quero deixar também um beijo muito especial aos meus grande amigos que perdi contato e gostaria muito de revelos.Todos desde os meus professores quanto meus amigos:
    Lucia que Morava no Bairro Vasco em Duque de Caxias
    Joe meu amigo da 4a. série ginasial.
    Se alguém conhecer algumas destas pessoas citadas entre em contato.Obrigado.

  4. sara said,

    2 de fevereiro de 2012 às 10:41

    eu adoro tudo o que de vcs fazem por todas essas pessoas espero que vcs numca mudem !!!!!!!!!!!!

  5. sara said,

    2 de fevereiro de 2012 às 10:41

    amor todos do barão

  6. Bruna said,

    26 de julho de 2012 às 8:30

    Gostaria de saber p telefone do barão, alguem me ajudaria ? Obrigada !

  7. israel said,

    3 de setembro de 2012 às 10:08

    Eu gostaria de saber, se um aluno que já fez o 1°ano no Ensino Médio, mas que deseja fazer Formação Normal, teria que refazer o 1°ano ou não?

  8. leandrotsc said,

    22 de outubro de 2014 às 14:58

    Boa tarde!

    Fui com minha esposa no colégio recentemente, mais exatamente na segunda-feira, 20/10/2014 pois ela precisava pegar o diploma.

    Perguntei o telefone da secretaria e me informaram este: (21) 2775-3630.

    Espero que ajude..

    Leandro Toledo


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