Crime e Telemarketing

por Marilene Felinto*
É para o crime e para o telemarketing que mais se perdem jovens (para não citar a gravidez como outro motivo, para não associar nascimento de vida com delito e exploração) – jovens das classes baixas, é claro, que tentam tomar o rumo dos estudos e da preparação para um trabalho digno, especialmente aqueles que já terminaram o ensino médio.

Em sete anos observando adolescentes de famílias de baixa renda da periferia de São Paulo, vi perderem-se alguns para o crime, fenômeno mais “normal”, digamos, nestes contextos de pobreza urbana, do que a atual debandada para o “emprego” em empresas de telemarketing, evento observado de forma crescente nos últimos quatro anos.

“Perder-se” significa aqui sair do rumo mesmo, abandonar os projetos em que estavam envolvidos e dos quais tinham algum apoio para continuar os estudos e cavar um lugar menos pior do que o subemprego.

Para o crime perdeu-se Paulo (nome fictício), 20 anos, preto de pele, pai e irmão assassinados, ensino fundamental não concluído (tinha estudado até a 7a série). “Normal” que o destino de Paulo – a despeito do emprego e do curso técnico que lhe arranjaram para dar o salto de qualidade na vida – fosse o comportamento criminoso reincidente. Paulo achava que ser bandido era sua forma de vingar o assassinato dos parentes. Para o roubo a mão armada perdeu-se também Fábio (nome fictício), 18 anos, branco, história real semelhante à de Paulo. Para a cumplicidade do crime com o namorado presidiário e fugitivo perdeu-se Sandra, 20 anos, também preta de pele, e que manifestava o desejo de cursar artes cênicas para ser atriz.

Mas esperar que Francisca (nome fictício), 19 anos, estudante dedicada, moradora da periferia da zona sul (unia das regiões mais abandonadas da cidade), sem telefone, sem conta de luz ou água formais, mas que nem por isso deixou de cursar por mérito próprio uma escola técnica pública e uni curso pré-vestibular, largasse tudo por uma gravidez não planejada é de admirar (eu ia dizer que é “um crime”, a inevitável associação de idéias). Francisca se auto-sabotou (como bem disse uma médica conhecida minha sobre esses casos de adolescentes mulheres que engravidam exatamente no momento em que poderiam “deslanchar” na vida). Uma auto-sabotagem, uma repetição da história de penúria e desamparo das mães delas.

Mas daí a esperar que se perderiam Luciano, Iara, Cacilda, Teodoro (nomes fictícios) e tantos outros para a escravidão do telemarketing é inacreditável. Por 400 reais e alguns parcos benefícios eles largaram tudo – as empresas de telemarketing adotam práticas trabalhistas injustas, submetendo os jovens a horários de trabalho arbitrários, modificados quando a empresa bem entende, dificultando a vida de jovens que estudam e precisariam trabalhar em turnos que permitissem a eles a continuidade dos estudos.

Para não dizer que os meninos e meninas do telemarketing não passam de uma extensão de voz do computador diante do qual passam às seis horas diárias em que até mesmo o momento de ir ao banheiro é controlado. É claro que jovens que não têm o que comer dentro de casa precisam ir para o matadouro do telemarketing (quem trabalhou desde os 14 anos de idade para ajudar a família sabe do que se trata).

“Milagre”
Li outro dia que até mesmo tese já escreveram sobre o efeito devastador do telemarketing na vida desses jovens pobres (Selma Venço, doutorado pela faculdade de educação da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp).

O telemarketing vem mesmo operando um verdadeiro “milagre” de recrutamento de jovens entre as classes baixas. E, como é tudo impessoal ao telefone do jovem-máquina amestrado no arremedo, como ninguém, vê ninguém, o telemarketing conseguiu inclusive a façanha de solucionar o problema da “boa aparência” e do preconceito que operam contra jovens pobres que procuram emprego. O telemarketing aceita com facilidade negros (Cacilda), gays (Teodoro), gordos etc. pelo simples fato de poder ocultá-los da sociedade!

Eles só precisam ter “ensino médio completo”. É o fim da linha.

* Marilene Felinto é escritora – texto publicado na Revista Caros Amigos, nº 121, abril de 2007 (porém, em setembro de 2011, infelizmente o texto é atualíssimo).

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