Massacre no Pinheirinho continua

Bom dia companheirada,
Venho aqui compartilhar um pouquinho do que vi e vivi no Pinheirinho. É um relato bem superficial, de quem não esteve presente nos trabalhos de base ou nos grandes acontecimentos, mas foi hoje buscar uma forma de ajudar e participar desta luta. Estive nos alojamentos e pude ver que a situação está bem precária:
– Todos falam baixinho sobre a morte da tal menina, de 4 anos, que eles viram ser morta pela Polícia. Quando chegam com uma câmera perto, ninguém fala mais nada sobre o assunto. Dizem que outras seis pessoas também podem ter morrido, pois não estão listadas entre feridos e, misteriosamente, não estão em nenhum hospital da área do Vale do Paraíba (São José, Taubaté, Jacareí, etc). Dizem que os mortos foram levados para São Paulo, e lá foram enterrados como indigentes, não sendo consideradas baixas de uma guerra suja. A incipiente equipe de comunicação ainda busca formas de encontrar as pessoas e divulgar ao mundo o massacre.
– O clima é de tensão na região. Passei pela área onde a Polícia havia montado a barreira, e lá ainda se parece com uma zona de guerra: vidros no chão, marcas dos carros queimados, alguns cartuchos de balas de borracha e uma população amedrontada nas redondezas (Vale do Sol, Jardim Morumbi, Campão e etc)
– A população do Pinheirinho, em si foi levada para três locais da prefeitura. A separação foi proposital, pois a militância orgânica dos movimentos, partidos e sindicatos presentes só foram autorizados a entrarem em um deles. Nos outros, ninguém entra nem para levar comida. As refeições destas pessoas são o almoço (servido às 13 horas) e a janta (às 20). Alguns militantes tentaram entrar com frutas, biscoitos para as crianças, escovas de dente, fraldas e absorventes, mas foram barrados nos outros dois alojamentos.
– A chantagem da Prefeitura é clara (e é parecida com a utilizada por Agnelo no ano passado): cansar a população, obrigando eles a ficarem nos alojamentos, aguardando o cadastro e o auxílio aluguel. Não se pode sair nem para trabalhar, fazendo com que muitos estejam perdendo seu emprego. Apenas um quarto da população que estava antes no Pinheirinho estava cadastrada na Prefeitura, e existe a chance de que apenas estes recebam o auxílio, desde que não tenham deixado os alojamentos da prefeitura em nenhum momento. Quem sair para ir à casa de um parente, ou ao Hospital, perde o lugar no cadastro e ficará sem auxílio nenhum da Prefeitura.
– A precariedade é total e os pombos que estão no local almoçam junto às crianças. Alguns pombos já mortos deixam o local ainda mais sujo. Algumas crianças estão apavoradas e precisam de acompanhamento psicológico, chorando ao verem as viaturas da Polícia Militar, que passa constantemente pelos alojamentos.
– A chantagem de não poder sair do alojamento é desumana: moradores da comunidade com Hepatite C, HIV e pneumonia convivem em uma quadra de esportes, extremamente apertados e sem acesso ao saneamento necessário para não piorar suas condições. A brigada de médicos voluntária denuncia a tentativa de contaminação coletiva da população. Uma travesti soropositiva chamada Pâmela, que está em um estado extremamente debilitado, está em um dos alojamentos isolados, sem acesso a nada, mas arriscando sua vida para não perder a “compensação” do auxílio aluguel. A equipe da saúde está em alerta, pois o quadro da travesti já é bastante difícil, agravando-se diariamente.
– O “auxílio-aluguel” em si é uma mentira descarada da prefeitura (prática comum na tentativa de minar a luta por moradia). Em alguns momentos dizem que ele será de “até quinhentos reais”, mas não especificam exatamente o valor, nem o período de duração exato, tampouco explicam como uma família de 7 pessoas pode sobreviver com esta quantia de dinheiro.
– A especulação imobiliária se aproveitou da situação e, ao ser anunciado o auxílio aluguel para as famílias, o preço da moradia disparou. Mesmo nas comunidades mais carentes, a moradia mais precária está custando o valor do auxílio aluguel que ainda nem saiu. Além disso, muitos dos despejados tiveram todos os seus documentos roubados ou tomados, então não possuem meios para conseguir um aluguel em lugar algum, ou qualquer incentivo de programas de moradia do governo.
– Tudo foi perdido na desocupação. A falsidade dos lacres nas casas não evitou o saque da Polícia e de ladrões, fazendo com que todos os que furaram o cerco da Polícia para tentar buscar seus pertences dessem de cara com casas já demolidas com tudo dentro e, as que ainda estão em pé, totalmente esvaziadas pelo saque.
– A classe média da região do Vale do Paraíba é bastante xenófoba com relação ao nordestinos que vêm das duas últimas décadas de migração. O preconceito de classe torna-se ainda mais cruel quando um Prefeito facista, Eduardo Cury, do PSDB, assume votando inclusive leis que negam o pão e o leite a “filhos de imigrantes nordestinos que não estão há mais de dois anos na cidade”. Este absurdo também é evidenciado em outras leis, como a lei municipal que afasta professores do ensino fundamental e médio por dois anos caso falem com seus alunos sobre homossexualismo.
– A imprensa daqui é implacável em desqualificar a ocupação do Pinheirinho, dizendo que era terra de traficantes, de desocupados e malandros. A TV Vanguarda (filiada da Rede Globo) possui uma sintonia muito grande com a Prefeitura, repetindo à risca as mentiras da prefeitura, dizendo que não houve feridos e que a desocupação estava dentro da legalidade.
– Em mais uma estratégia vil do governo, eles estão fornecendo passagem só de ida de graça para quem quiser voltar ao Nordeste. As passagens são distribuídas nos alojamentos, aliciando a população a abandonar tudo e voltarem para seus estados de origem.
– O MTST, o Sindicato dos Metalúrgicos (que é filiado à Conlutas), PSTU e PSOL são as organizações que fazem grande parte do trabalho de base aqui. A perseguição é grande contra os companheiros do MTST, que foram diversas vezes ameaçados pela Polícia. O que vemos é que aqui, onde as dificuldades são muito grandes, há uma tentativa legítima de articulação e união de forças das organizações (facilitada pela fraqueza e incapacidade do PT local em aparelhar o espaço).
– Em assembleia feita ontem com cerca de 1300 pessoas, foi deliberada a realização de um GRANDE ATO na quinta-feira, às nove horas da manhã, com a vinda em massa de caravanas dos movimentos de São Paulo e Rio para denunciar o massacre e cobrar a punição aos culpados. É fundamental que possamos auxiliar neste ato, mesmo que seja à distância (realizando um ato paralelo, enviando recursos para a realização do ato ou vindo pessoalmente para cá para participar dele).
– As perspectivas a curto prazo não são tão boas, pois a estratégia do governo em cansar a população através do chantagem do cadastro, do alojamento precário, da mentira do auxílio-aluguel, das passagens, da pressão policial e todas as outras violações dos direitos humanos têm dado duros golpes na organização. A grande esperança é que este ato de quinta-feira possa trazer uma nova motivação para a população, que está em choque.
– As dificuldades de encontrar e contabilizar os mortos e feridos no confronto, e garantir o acesso aos alojamentos isolados precisam ser denunciadas com urgência. Precisamos encontrar formas de contar a verdade à população sobre o que aconteceu e está acontecendo aqui.
Estes são alguns dos elementos que trago para a reunião de terça-feira (que farei o possível para estar presente). Temos muito o que fazer para ajudar a população daqui, que, assim como no DF, tem a luta por moradia como sua sina e um passo fundamental na luta por sua definitiva libertação!
Um forte abraço!
Thiago Ávila
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