Quando secar o rio da minha infância – Frei Tito

criancas brincando

Quando secar o rio da minha infância
secará toda dor.
Quando os regatos límpidos de meu ser secarem
minh’alma perderá sua força.
Buscarei, então, pastagens distantes
– lá onde o ódio não tem teto para repousar.
Ali erguerei uma tenda junto aos bosques.
Todas as tardes me deitarei na relva
e nos dias silenciosos, farei minha oração.
Meu eterno canto de amor:
expressão pura da minha mais profunda angústia.

Nos dias primaverís, colherei flores
para meu jardim da saudade.
Assim, externarei a lembrança de um passado sombrio.

Paris, 12/10/1972 – Frei Tito

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A DITADURA EM MIM, SEUS NÓS EM NÓS – Chico Alencar

 

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 “O passado não conhece o seu lugar: ele teima em aparecer no presente” (Mário Quintana, 1906/1994)

Todos somos originários de geração biológica e cultural, involuntária, não escolhida. Dou graças a Deus pela minha, sertaneja. Sou filho de um piauiense de Alto Longá, o velho ‘seu’ Alencar (1901/1963), jornalista e servidor do Ministério da Agricultura, e de ‘dona’ Nina, apelido de Jacintha (1914/2012), professora nascida em Santa Rosa de Viterbo, interior de São Paulo. Chegado ao mundo na metade do século passado, represento a transição do Brasil rural para o urbano: carioca da Tijuca, mas com raízes fundas na roça, no país dos grotões, do amanho da terra e da vida pacata das pequenas cidades, que até hoje me fascinam. É que meu pai, retirante da falta de perspectivas do Nordeste, “mala de couro forrado com pano forte, brim caqui” (Caetano Veloso), veio tentar a vida na então capital da República. E minha mãe, que o conheceu em férias numa “estação de águas”, como se dizia na época (em Araxá, Minas Gerais), topou a nova vida de casada longe de seu pequeno burgo, vindo para o Rio de Janeiro.

Todos temos uma geração histórica e política, biográfica, nem sempre escolhida, mas na qual podemos ter alguma interferência. Eduardo Galeano ensina: “somos o que fazemos e, sobretudo, o que fazemos para mudar o que somos”. Adolescente, minha consciência mais ampla do mundo, já órfão de pai, foi sendo forjada no período trevoso da Ditadura. Aluno do Colégio Marista São José, no antigo ginásio, a ‘estufa’ ideológica onde formei minha primeira percepção racional das coisas era conservadora. O temor da ‘República Sindicalista’ era proclamado por professores e pela própria instituição escolar, além das preocupações que ouvia no ambiente familiar.

É certo que a moldura cristã sempre impunha, também, um sentido de solidariedade e uma preocupação com os outros, sobretudo os ‘deserdados da sorte’. “Vidas secas” e outros livros de Graciliano Ramos (1892/1953) e José Lins do Rego (1901/1957), alguns deles com dedicatória a meu pai, traziam-me a desigualdade do país e a dor do mundo. Talvez isso tenha ajudado a que minha trajetória tenha sido semelhante a de muitos jovens da pequena burguesia urbana da época: de potencial reacionário a progressista.Ditadura

A figura política de proa, que me impressionava pela oratória e pela inteligência, embora eu não entendesse quase nada do que ele dizia, era Carlos Lacerda. Lembro-me de um único querido colega, Lucimar Brandão Guimarães, que tinha ideias de esquerda. Eu, intoxicado pela propaganda dominante na classe média, misturava tudo. Um dia, de brincadeira, escrevi no caderno de Lucimar (gostava de me sentar ao lado dele por sabê-lo de inteligência acima da média): “fora os nazistas!”. Ganhei do colega uma ‘aula’ explicando a diferença entre o nacional-socialismo de Hitler e o comunismo (de Stálin, vá lá…)

Lucimar foi um dos primeiros “amigos presos, sumidos assim, pra nunca mais” (Gilberto Gil), pelo regime que se implantou. Golpe militar, mas também com adesão de setores da sociedade civil. Foi este apoio que me levou, à época, a recortar e colar, desta vez no meu próprio caderno, a capa de um folheto especial da Seleções do Reader´s Digest, com a bandeira brasileira tremulando: “a Nação que se salvou a si mesma”. Em pouco tempo comecei a ficar intrigado com fatos obscuros: se a intervenção militar fora feita para ‘salvar a democracia’, por que todos os Atos Institucionais editados a partir dali restringiam as liberdades democráticas?

Em pouco tempo também aprendi que golpe, na política, é usar da força armada e tomar o poder, desrespeitando as regras do jogo, sem participação da maioria do povo. Revolução é diferente: embora ela quebre normas institucionalizadas, resulta de intensa e tensa presença popular. Não há revolução sem povo. Já o golpe se dá contra o povo e, em geral, sem que ele perceba bem o que está acontecendo. Foi com essa compreensão de menino curioso que comecei a transitar do universo conservador, da direita, para a visão igualitarista e a percepção das injustiças sistêmicas, da esquerda.

Maduro, graças à vida e aos livros, descobri que ao longo da nossa História tivemos muitos golpes e nenhuma revolução, no sentido pleno do termo. A História brasileira é de uma recorrente ‘transição intransitiva’, desde o (des)cobrimento, que para os povos nativos significou o início de sua dizimação. Nossa independência foi liderada por um príncipe português, e seu caráter de não-ruptura é verificável até na famosa frase que D. João VI. Às vésperas de regressar para sua terrinha, ele teria dito a seu filho: “Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que há de me de respeitar, do que para qualquer desses aventureiros”. O conselho do rei luso de regresso aludia aos republicanos revolucionários de ‘nuestra America’. Nossa República foi proclamada tardiamente por um admirador de D. Pedro II e o ‘governo do povo’ que se seguiu era o do pacto oligárquico. A chamada Revolução de 1930 foi feita “antes que o povo a fizesse”, no dizer do presidente da província de Minas, Antonio Carlos. O Estado Novo de 1937, suprimindo a ordem constitucional instaurada três anos antes, inspirava-se na experiência totalitária dos regimes em ascensão da época, na Alemanha, Itália, Portugal e, depois, Espanha.

O golpe de 1ª de abril de 1964 – e não “Revolução Redentora de 31 de março” – nunca se assumiu como tal: na versão oficial, objetivava “salvar a democracia e livrar o país da corrupção”. O golpe civil-militar, com apoio direto dos EUA, como fartamente documentado, foi o último? Tomara, por todos os séculos vindouros.

Estou entre os que consideram que o único legado proveitoso da Ditadura foi a consolidação, pelos que a ela resistiram e para as gerações que não a sofreram, dos valores da cultura democrática radical: supressão das liberdades, censura, prisões políticas e morte nunca mais! Ditadura, tanto quanto seu subproduto, a tortura, nunca mais! Democracia pede mais democracia: participativa, ampliada, de alta intensidade, direta, real, substantiva. Bem mais que essa formal e banal que temos, das eleições bienais marcadas pela influência do poder econômico. Mas, com todas as suas limitações, ela é bem melhor que a Ditadura. Os jovens precisam conhecer essa quadra de truculência, para repudiá-la sempre.

ditadura nunca mais

Espanta esse meio século do golpe, espantamo-nos os sexagenários com a multidão que sequer era nascida quando dos comícios das “Diretas Já!”: passa o tempo, que tudo engole com sua boca devoradora. Mas não a nossa memória, que devemos preservar e cultivar. Há meio século – quem diria?! –, em um Primeiro de Abril duramente verdadeiro, o presidente João Goulart, que assumira há menos de três anos no lugar do renunciante Jânio Quadros, foi deposto por um movimento militar estimulado por “Marchas da Família” e apoiado pelos governadores dos três principais estados, Magalhães Pinto (MG), Lacerda (GB) e Ademar de Barros (SP), além da atenta supervisão do Departamento de Estado norte-americano, de prontidão para assegurar o êxito da operação. Por isso se diz, corretamente, que a intervenção de deposição do presidente Jango foi um golpe civil-militar. As reformas de base, os direitos dos pobres, a liberdade artística, a soberania nacional sofreram um violento ataque.

O governo dos EUA acantonara navios de guerra no nosso litoral – como previa a “Operação Brother Sam” – e os golpistas iniciaram um longo domínio sobre o país. Os generais eram impostos sob a farsa das ‘eleições indiretas’ em um Congresso castrado. E assim assumiram o posto máximo da Nação os ‘cinco estrelas’ Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo, com um breve intervalo de continuidade, gerido pela ‘troika’ de uma Junta composta pelos três ministros militares. Como me ensinou um antigo aluno do ensino médio (então 2º grau), o jornalista Luís Erlanger, em momento de aula em que eu, supondo-me sob espionagem, gaguejava para caracterizar essa nossa etapa histórica, iniciou-se um “período composto por subordinação” (a sagacidade do jovem salvou o professor de História, que não podia falar em Ditadura Militar naqueles anos de chumbo…) .

Antes de ser professor, fui aluno não apenas do Colégio Marista, mas do Pedro II e do Aplicação da então UEG, depois UERJ, quando o estado da Guanabara deixou de existir, também por imposição do Estado de Exceção. No Pedro II, ao participar de uma passeata contra o regime, em 1966, dois anos depois do golpe, fui preso na Praça Tiradentes, ainda menor de idade. Nada de muito pesado: apenas uma noite, com dezenas de outros jovens, na estrebaria do Quartel da Polícia Militar, no centro do Rio. E o (in)devido ‘fichamento’, que me dava dor de cabeça nos concursos públicos em que tinha êxito, pois o famigerado atestado ideológico exigido para a efetivação custava a sair…

No CAP, reabrimos o Grêmio Estudantil e vivemos a ebulição de 1968. É viva a lembrança do dia 28 de março daquele ano, quando o estudante Edson Luís, 18 anos, foi morto pela Polícia Militar, ao participar de manifestação por melhor qualidade da refeição no Restaurante estudantil Calabouço. Fui direto para a Cinelândia e, emocionado, arranquei uma folha do meu diário e estampei, diante do corpo de Edson, no saguão do Palácio Pedro Ernesto, minha manuscrita indignação: “Ditadura mata!”. A “Passeata dos Cem Mil”, em junho, foi uma catarse. No ano seguinte, já em plena vigência do AI-5, “o golpe dentro do golpe”, o Grêmio foi fechado e eu, seu presidente, junto com outros membros da diretoria, como Cecília Leal de Oliveira, Ricardo Menezes e Claudio Smith, entre outros, recebemos o ‘bilhete azul’: se não procurássemos outra escola, as penas do Decreto 477 cairiam sobre nós, impedindo-nos de estudar durante três anos! O Colégio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem, também na Tijuca, dirigido pelo judeu ‘comunista’ Moisés Genes, nos acolheu.

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Fui e sou aluno, como todos, da escola da vida – de padrão tão fascinante que, nela, ninguém fica na expectativa de ter férias… Ela me ensinou e ensina demais. Naquele período, as lições mais proveitosas vieram da Juventude Estudantil Católica, que procurava aproximar fé e vida, seguimento do Evangelho de Jesus Cristo e política. Ainda no governo de Castelo Branco, lá estava eu participando de meu primeiro encontro, orientado pelo padre Eduardo Koaik, falecido em 2012, como bispo emérito de Piracicaba (SP). Nosso livro de cabeceira era de um sacerdote e escritor francês, Michel Quoist (1918/1997): “Construir o homem e o mundo”. As edições mensais da Revista Paz e Terra, similar brasileira da francesa Esprit (da esquerda católica de lá), eram aguardadas com ansiedade intelectual quase mística, bem como o jornal “Folha da Semana”, editado por Otto Maria Carpeaux (1900/1978), antecessor do “Opinião”, “Movimento” e “Pasquim”, para o qual cheguei, mais tarde, já formado, a colaborar, com artigos sobre episódios tragicômicos da nossa História.

Através da JEC conheci muita gente bacana. E fui percebendo com mais clareza a força destruidora do regime de arbítrio e opressão. Daria para escrever um livro inteiro com histórias de amigos queridos que foram destruídos psicologicamente e/ou sequestrados, torturados e mortos. Além de Lucimar, Antonio Marcos de Oliveira e seu irmão Januário, Maurício Guilherme da Silveira, Luiz Raimundo de Carvalho, Antonio Carlos Morari – todos parceiros de copo e de cruz, de confidências sobre desilusões amorosas, expectativas futebolísticas e delírios de um novo mundo fraterno e solidário.

A perda mais violenta e marcante foi a do amigo Antonio Henrique Pereira Neto, padre e psicólogo, assessor de d. Helder Câmara (1909/1999), então arcebispo de Olinda e Recife – o “bispo vermelho”, segundo os militares, por quem torcíamos para que ganhasse o Prêmio Nobel da Paz (para o qual foi cogitado algumas vezes, com muita razão). Henrique, como o chamávamos, era a alegria em pessoa. Cáustico, nunca usava batina, e brincava quando, passeando pelo Rio conosco, cruzávamos com freiras de longos hábitos.

– Quantas minissaias daria pra fazer com esse pano, irmã!”, provocava Henrique. Algumas sorriam, mas a maioria, lembro bem, franzia o cenho e acelerava o passo para se livrar daquele ‘herege’. Henrique também tinha uma forma peculiar de responder ao corriqueiro “como vai” dos amigos: “- Vivendo, acha pouco?”, dizia.

Não era pouco mesmo. Tragicamente sua existência foi breve demais. Em 1969, aos 28 anos, ele foi torturado, enforcado, baleado com três tiros na cabeça e um na garganta, arrastado e esquartejado pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC), quando saía da Faculdade onde lecionava, no Recife. Os trucidadores, amparados pelo sistema e pelo véu espúrio de uma interpretação equívoca da Lei de Anistia, ainda não foram plenamente identificados. Lembro-me, como se fosse hoje, da comovente missa em memória de Henrique, na Igreja de Santana, na Praça XI, no Rio. Repleta de jovens (e de agentes do regime, vigilantes), concelebrada por muitos padres, o canto final ecoava como um grito de denúncia contra a barbárie da Ditadura. E aviso profético de que o sangue derramado por nossos mártires não seria em vão: “Prova de amor maior não há/ que doar a vida pelo irmão!”

Pe. Antônio Henrique

A tragédia de Henrique e de tantos outros que iam sendo trucidados fez parecer ‘amenidade’ os embaraços que o regime impôs ao estudante universitário, ao enviar um agente espião para acompanhar as aulas na Universidade Federal Fluminense (UFF), e que me dedicou especial ‘amizade’ para, na verdade, mapear os trabalhos da igreja e da VAR (Vanguarda Armada Revolucionária) Palmares – da qual fui considerado base de apoio logístico, como soube muito depois. Nesse disfarce, o agente infiltrado, que vivo procurando até hoje, disse que foi até “conhecer o belo trabalho pastoral da diocese de Olinda e Recife”!

Também assimilei como quase ‘normal’ a exigência ao professor aprovado no concurso público para lecionar no estado, que precisou adiar sua posse por sucessivos meses até conseguir o ‘atestado de bons antecedentes’ no Departamento de Ordem Política e Social, o famigerado DOPS. Sim, depois de ser sabatinado pelo temido inspetor Mário Borges. Sua total ignorância da História permitiu que eu o enrolasse com teorias a ponto dele, suponho, me considerar um educador prolixo e inofensivo, mais sub-ser-vivo que subversivo, mais para os irmãos Marx (que ele também desconhecia) que para o velho Marx… Afinal, o ‘atestado ideológico’ saiu para que eu pudesse exercer o ‘perigoso’ ofício de professor. Um ‘nada consta’ benevolente: minha breve história de vida, mesmo com pequeno potencial ofensivo, já estava devidamente registrada, e dela constavam muitos apontamentos, com ilustrações que iam dos cartazes na sala do grêmio do CAP à palestras que dei em Nova Iguaçu, nas igrejas da diocese de D. Adriano Hipólito (1918/1996), outro ‘bispo vermelho’. Na minha ficha também há menções à atuação no movimento de moradores, já na dita ‘abertura’ – eufemismo para classificar a transição controlada, pelo alto, intransitiva, do regime de força para esta nossa embrionária democracia. Soube disso quando os arquivos do regime foram, enfim, abertos.

historia-da-sociedade-brasileira-franciso-alencar-luciaToda ditadura, quanto mais tirana seja, mais burra é. Foi a experiência de estupidez persecutória da ciência da História que me instigou a escrever, com Marcus Venício Ribeiro e Lúcia Carpi, o livro que se tornou quase ‘clássico’ do ensino médio e das séries iniciais de algumas faculdades, o ‘História da Sociedade Brasileira’ – também ele alvo de ‘recomendações’ de não adoção, pelo conteúdo ‘estimulador da luta de classes’, segundo autoritários e conservadores de todo o tipo.

O poder não era só militar, repressão pura e dura a quem divergisse. Ergueu-se um bloco baseado nas empresas multinacionais, que tiveram sua vida aqui enormemente facilitada; nas estatais, que garantiam preços subsidiados para os investimentos privados; numa burocracia político-administrativa que carimbava e vigiava; e numa produção do imaginário social, através dos controlados grandes meios de comunicação de massa, que exaltava ufanisticamente o ‘Brasil Grande’, o ‘país que vai pra frente’. A vida política ficou restrita ao bipartidarismo de ficção, com o partido do sim, o MDB, e o do sim senhor, a ARENA. É verdade que, para efeito externo, o MDB era oposição. Mas ai dos emedebistas que se “excedessem” no discurso: eram cassados, isto é, deixavam de exercer seus mandatos parlamentares por decisão do general de plantão. Página infeliz da nossa História!

E “passagem desbotada na memória de nossas novas gerações”, para seguir citando Chico Buarque e Francis Hime. Eles e muitos outros jovens de então, entre os quais me incluo, fomos formados nesse ambiente de repressão, censura e tortura. Os que “partiram fora do combinado”, tão precocemente, estão num cantinho sofrido da nossa memória, por terem revivido em suas breves existências a paixão e morte de Cristo. A mesma de tantas vítimas da resistência indígena, negra e popular no Brasil: nossos mártires. Nós sobrevivemos e superamos o medo, ainda que pagando com expulsão das escolas, prisão e exílio.

Outra escola da vida, de cujo ‘diploma’ muito me orgulho, foi o movimento comunitário, das Associações de Moradores. Sua pujança se deu já no declínio do regime, acompanhando os movimentos que clamavam por liberdades democráticas. Os ideólogos do autoritarismo deviam ficar atazanados: empurrados para dentro de suas casas, para ‘tocar sua vida’ privada, os cidadãos resgatavam a dimensão da vizinhança e da luta comum por equipamentos urbanos coletivos e políticas públicas adequadas de educação, saúde, saneamento básico, transportes, moradia. A Federação das Associações de Moradores do Rio de Janeiro (FAMERJ), que também presidi, foi minha ‘universidade’ social e política. Ali se aprendia – como nas associações de moradores, até hoje – que nenhuma iniciativa governamental tem valor e enraizamento se não passar pelo crivo participativo dos seus usuários ou beneficiários. “Nada sobre nós, sem nós!” – o lema dos deficientes hoje vale, há tempos, para a cidadania em geral.

Tudo isso é passado e, às vezes, nem parece que éramos nós mesmos os protagonistas (melhor dizer os antagonistas) daqueles tristes momentos. Mas a cultura da aceitação, da passividade, do imobilismo que o golpe de 64 impôs ainda tem força no Brasil de hoje: o individualismo vale mais que os movimentos, a ditadura do consumo sufoca a criatividade, o capital financeiro continua decidindo nosso destino como nação, ter consciência política não é para as pessoas comuns e sim para os “entendidos”, na sociedade do espetáculo há mais “cidadania do aplauso” do que ativa e participativa. Millôr Fernandes (1923-2012), outro que colocou a força dos argumentos e da inteligência contra o argumento da força e da imbecilidade do poder, dizia que “cidadão neste país em que não há qualquer cidadania passou a significar só… cidade grande!”

Aos 25 anos da Constituição cidadã, ainda não se horizontalizou a cidadania no Brasil, e muitos dos seus artigos não desceram do papel para a realidade… Alguém já disse que, no Brasil, cumprir a lei é revolucionário.ditadura 3

Quem não se lembra do passado corre o risco de revivê-lo. Revisitar acontecimentos históricos é reinterpretrá-los, agregando em sua leitura os novos conhecimentos que adquirimos. “A história não é um campo de exatidões (…) As releituras são sempre positivas, porém devem ser rigorosas e a veracidade – não “a verdade” – testada e arguida”, lembra meu ex-aluno Francisco Carlos Teixeira da Silva, hoje renomado professor-doutor. A História é uma ciência aberta, sempre passível de novas análises. Há, porém, a permanência de valores que atravessam a trajetória da Humanidade, por serem fios condutores de avanços, em meio a sombras e luzes, passos adiante e retrocessos. Nada é linear, tudo é dialético.

No aniversário de meio século do golpe, assumo as palavras do amigo compositor Fernando Brant, que reagiu à ruptura política e institucional com a sensibilidade dos que são vocacionados à grandeza e dignidade humanas’: “os acontecimentos daqueles dias ainda estão claros na memória. Fechado no escuro do quarto, querendo fugir do mundo que me chegava pelo rádio, eu, pouco mais que um menino, chorava, como se fosse morte a viagem-fuga do Presidente Jango. Os anos passados, a maturidade e a visão diária da injustiça e do ódio, da opressão, da mentira e do medo me levam, agora, adulto, em nome da verdade e da História, a reafirmar o menino: as lágrimas derramadas em 64 continuam justas.”

*Chico Alencar é professor de História e deputado federal (PSOL/RJ)

Texto revisto e concluído em 31 de março de 2014

30 de abril: Dia da Baixada Fluminense!

Um viva a Baixada Fluminense!
30 de Abril, #DiadaBaixadaFluminense

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FIQUE LIGADO!
Dia 12 de Maio, sábado, acontece no Sindiquímica, em Duque de Caxias, o CURSO SOBRE A HISTÓRIA DE DUQUE DE CAXIAS. “CONHECENDO NOSSA CIDADE.”

Informe-se: caxiasdecaranova@gmail.com

Duque de Caxias: 68 anos de emancipação.

Hoje, 31 de dezembro, é o aniversário de nossa cidade, Duque de Caxias, que completa 68 anos de emancipação e com uma história que vai muito além desse período.

Emancipação, segundo o dicionário Aurélio, significa: 1. Eximir-se do pátrio poder ou da tutela. 2. Tornar-se independente, libertar-se

O meu desejo é que o sol da justiça brilhe sobre essa terra, onde a riqueza é mal dividida pelas suas sucessivas más administrações.

O meu desejo é que a qualidade de vida seja o principal indicador e norte para prefeitos, vereadores, funcionários públicos, educadores, estudantes e para a população como um todo.

O meu desejo é que nosso povo se torne cidadão, com maior participação na nossa política local. Não apenas com interesses pequenos e individualistas, mas com grandeza e nobreza de pensar no bem comum, de eleger pessoas comprometidas com a justiça, com as boas lutas do povo e fiscalizar o mandato dos eleitos. Que o analfabetismo político, pai de boa parte de nossas mazelas sociais, seja erradicado. Que nossa zona de conforto seja rompida pela esperança de gerir o novo. Pois, sem participação popular não haverá nenhuma das transformações acima descritas.

O meu desejo é que todos esses desejos, e muitos outros, sejam não apenas meu, mas, sobretudo, nosso desejo.

Vamos juntos tornar esses desejos realidade e que Deus nos abençoe. Um 2012 com muita alegria, solidariedade, dignidade, justiça e paz!

Fabio Pereira

Mensagem do ator Wagner Moura aos senadores e ao povo brasileiro

Conhecendo Nossa Cidade: curso gratuito sobre a História de Duque de Caxias

Che Guevara e os mortos que nunca morrem – Eric Nepomuceno

Diz Eduardo Galeano, que conheceu o Che Guevara: ele foi um homem que disse exatamente o que pensava, e que viveu exatamente o que dizia. Assim seria ele hoje. Já não há tantos homens talhados nessa madeira. Aliás, já não há tanto dessa madeira no mundo. Mas há os mortos que nunca morrem. Como o Che. E, dos mortos que nunca morrem, é preciso honrar a memória, merecer seu legado, saber entendê-lo. Não nas camisetas: nos sonhos, nas esperanças, nas certezas. Para que eles não morram jamais. O artigo é de Eric Nepomuceno.

Eric Nepomuceno

No dia em que executaram o Che Guevara em La Higuera, uma aldeola perdida nos confins da Bolívia, Julio Cortázar – que na época trabalhava como tradutor na Unesco – estava em Argel. Naquele tempo – 9 de outubro de 1967 – as notícias demoravam muito mais que hoje para andar pelo mundo, e mais ainda para ir de La Higuera a Argel.

Vinte dias depois, já de volta a Paris, onde vivia, Cortázar escreveu uma carta ao poeta cubano Roberto Fernández Retamar contando o que sentia: “Deixei os dias passarem como num pesadelo, comprando um jornal atrás do outro, sem querer me convencer, olhando essas fotos que todos nós olhamos, lendo as mesmas palavras e entrando, uma hora atrás da outra, no mais duro conformismo… A verdade é que escrever hoje, e diante disso, me parece a mais banal das artes, uma espécie de refúgio, de quase dissimulação, a substituição do insubstituível. O Che morreu, e não me resta mais do que o silêncio”.

Mas escreveu:

Yo tuve un hermano
que iba por los montes
mientras yo dormía.
Lo quise a mi modo,
le tomé su voz
libre como el agua,
caminé de a ratos
cerca de su sombra.
No nos vimos nunca
pero no importaba,
mi hermano despierto
mientras yo dormía,
mi hermano mostrándome
detrás de la noche
su estrella elegida.

A ansiedade de Cortázar, a angústia de saber que não havia outra saída a não ser aceitar a verdade, a neblina do pesadelo do qual ninguém conseguia despertar e sair, tudo isso se repetiu, naquele 9 de outubro de 1967, por gente espalhada pelo mundo afora – gente que, como ele, nunca havia conhecido o Che.

Passados exatos 44 anos da tarde em que o Che foi morto, o que me vem à memória são as palavras de Cortázar, o poema que recordo em sua voz grave e definitiva: “Eu tive um irmão, não nos encontramos nunca mas não importava, meu irmão desperto enquanto eu dormia, meu irmão me mostrando atrás da noite sua estrela escolhida”.

No dia anterior, 8 de outubro de 1967, um Ernesto Guevara magro, maltratado, isolado do mundo e da vida, com uma perna ferida por uma bala e carregando uma arma travada, se rendeu. Parecia um mendigo, um peregrino dos próprios sonhos, estava magro, a magreza estranha dos místicos e dos desamparados. Foi levado para um casebre onde funcionava a escola rural de La Higuera. No dia seguinte foi interrogado. Primeiro, por um tenente boliviano chamado Andrés Selich. Depois, por um coronel, também boliviano, chamado Joaquín Zenteno Anaya, e por um cubano chamado Félix Rodríguez, agente da CIA. Veio, então, a ordem final: o general René Barrientos, presidente da Bolívia, mandou liquidar o assunto.

O escolhido para executá-la foi um soldadinho chamado Mario Terán. A instrução final: não atirar no rosto. Só do pescoço para baixo. Primeiro o soldadinho acertou braços e pernas do Che. Depois, o peito. O último dos onze disparos foi dado à uma e dez da tarde daquela segunda-feira, 9 de outubro de 1967. Quatro meses e 16 dias antes, o Che havia cumprido 39 anos de idade. Sua última imagem: o corpo magro, estendido no tanque de lavar roupa de um casebre miserável de uma aldeola miserável de um país miserável da América Latina. Seu rosto definitivo, seus olhos abertos – olhando para um futuro que ele sonhou, mas não veria, olhando para cada um de nós. Seus olhos abertos para sempre.

Quarenta e quatro anos depois daquela segunda-feira, o homem novo sonhado por ele não aconteceu. Suas idéias teriam cabida no mundo de hoje? Como ele veria o que aconteceu e acontece? O que teria sido dele ao saber que se transformou numa espécie de ícone de sonhos românticos que perderam seu lugar? Haveria lugar para o Che Guevara nesse mundo que parece se esfarelar, mas ainda assim persiste, insiste em acreditar num futuro de justiça e harmonia? Um lugar para ele nesses tempos de avareza, cobiça, egoísmo?

Deveria haver. Deve haver. O Che virou um ícone banalizado, um rosto belo estampado em camisetas. Mas ele saberia, ele sabe, que foi muito mais do que isso. O que havia, o que há por trás desse rosto? Essa, a pergunta que prevalece.

O Che viveu uma vida breve. Passaram-se mais anos da sua morte do que os anos da vida que coube a ele viver. E a pergunta continua, persistente e teimosa como ele soube ser. Como seria o Che Guevara nesses nossos dias de espanto? Pois teria sabido mudar algumas idéias sem mudar um milímetro de seus princípios.

Diz Eduardo Galeano, que conheceu o Che Guevara: ele foi um homem que disse exatamente o que pensava, e que viveu exatamente o que dizia.

Assim seria ele hoje.

Já não há tantos homens talhados nessa madeira. Aliás, já não há tanto dessa madeira no mundo. Mas há os mortos que nunca morrem. Como o Che.

E, dos mortos que nunca morrem, é preciso honrar a memória, merecer seu legado, saber entendê-lo. Não nas camisetas: nos sonhos, nas esperanças, nas certezas. Para que eles não morram jamais. Como o Che.

Fonte: http://www.cartamaior.com.br

Museu Vivo do São Bento realizará Colóquio sobre a História Geológica de Duque de Caxias

Aulas de capoeira no Museu Vivo do São Bento

Comissão da Verdade gera polêmica entre Chico Alencar e Bolsonaro

A Comissão da Verdade, prevista no Projeto de Lei 7376/10, provocou polêmica durante dedate realizado pelo programa Manhã no Parlamento. Jair Bolsonaro, do PP do Rio de Janeiro, chamou de “comissão da mentira” o grupo que poderá ser criado para apurar casos de violação dos direitos humanos praticados durante o período da ditadura. Segundo o deputado, a comissão, nos moldes do que prevê o projeto, não teria isenção para avaliar este período da História do país. Já Chico Alencar, do PSol, também do Rio de Janeiro, diz que esta comissão é fundamental para reparar os danos causados às vítimas do regime militar.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Ouça o debate baixando o link abaixo:

Clique aqui para baixar o conteúdo do debate

Fonte: http://www.camara.gov.br/internet/radiocamara/?lnk=0930-COMISSAO-DA-VERDADE-GERA-POLEMICA-ENTRE-CHICO-ALENCAR-E-BOLSONARO-2956&selecao=MAT&materia=122951&programa=41

Epigramas Caxienses – Solano Trindade.

Na Semana da Baixada Fluminense, uma pérola negra da nossa história: Solano Trindade!