Lições – Mia Couto

Lições

Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino

de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trémula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?

(Maputo, 2006)

Mia Couto In “Idades Cidades Divindades”

Identidade – Mia Couto

PARATY (RJ) - 06 DE JULHO. O escritor Mia Couto concede entrevista coletiva durante a FLIP 2007. (Foto: Tuca Vieira).

“Preciso ser um outro

para ser eu mesmo

Sou grão de rocha

Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando

o sexo das árvores

Existo onde me desconheço

aguardando pelo meu passado

ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro

no mundo por que luto nasço”

Mia Couto*, in “Raiz de Orvalho e Outros Poemas

*Mia Couto é natural da Beira, Moçambique, e considerado um dos nomes mais importantes da nova geração de escritores africanos de língua portuguesa.

Cego que vê muitas portas – Mia Couto.

Giverny, Claude Monet.

Agora já é tarde. Só reparo o tempo quando já passou. Sou um cego que vê muitas portas. Abro aquela que está mais perto. Não escolho, tropeço a mão no fecho. Minha vida não é um caminho. É uma pedra fechada à espera de ser areia. Vou entrando nos grãos do chão, devagarinho. Quando me quiserem enterrar já serei terra.

 

Mia Couto em “Vozes Anoitecidas”, Caminho, pág.95