Os evangélicos progressistas

Seguidores da Bíblia, eles se opõem à violência contra homossexuais, defendem a igualdade entre homens e mulheres e enfrentam preconceito dentro e fora da comunidade religiosa

Alessandra Oggioni , especial para o iG São Paulo | 23/05/2013 05:00:59

Eles são evangélicos, frequentam os cultos, leem a Bíblia e lutam para defender suas opiniões pessoais – mesmo que elas destoem do que pensa a maioria de seus irmãos em fé. Patrick, Morgana e Elias são considerados evangélicos progressistas, que se declaram contra a violência aos homossexuais, pregam a igualdade de direitos entre homens e mulheres e adotam uma postura mais questionadora sobre temas polêmicos, não sem enfrentar preconceitos dentro e fora do grupo ao qual pertencem. “Infelizmente, a sociedade vê o evangélico como conservador, limitado intelectualmente e manipulável. Mas esta não é uma imagem totalmente verdadeira”, afirma o comentarista esportivo Elias Aredes Junior, evangélico praticante.

Edu Cesar

Patrick, da Aliança Bíblica: “Para mim, ser progressista é não ter uma relação de submissão incondicional com a figura do pastor ou do líder religioso”

 

A comunidade evangélica no Brasil conta com mais de 42 milhões de pessoas, de acordo com dados do IBGE. O crescimento do número de fiéis é expressivo – eram 15,4% da população no ano 2000 e chegaram a 22,2%, em 2010.

Embora estejam todos “enquadrados” no mesmo grupo, há denominações bastante distintas. Os ensinamentos são diferentes em uma igreja da corrente histórica, como a Batista ou a Metodista, em comparação a uma pentecostal, à qual pertence a Assembleia de Deus, por exemplo, ou a uma neopentecostal, como a Igreja Universal do Reino de Deus.

Com doutrinas tão diferentes, alguns evangélicos buscam comunidades mais abertas a questionamentos e também participam de movimentos progressistas, para defender interpretações e pontos de vista nem sempre aceitos nos cultos. Conheça a história de três jovens cristãos que se incluem neste grupo.

Edu Cesar

Para Patrick, a polarização “evangélicos versus gays” precisa ser superada

Abaixo a submissão incondicional

Formado em ciências sociais, Patrick Timmer, 27 anos, trabalha como secretário-geral na Aliança Bíblica Universitária do Brasil, em São Paulo. De família evangélica, é membro da igreja Comunidade de Jesus, e se considera um “progressista”. “O termo progressista pode significar muita coisa. Para mim, é não ter uma relação de submissão incondicional com a figura do pastor ou do líder religioso”, define.

 

Para Patrick, tudo o que é ouvido no culto precisa “passar pelo crivo das escrituras e ganhar uma interpretação coerente”. Ele acredita que todo evangélico deve ter uma postura crítica e saber buscar respaldo na própria Bíblia. “É preciso analisar o contexto, procurar literaturas de apoio, conversar com outras pessoas. O diálogo e o debate sempre ajudam na construção de uma democracia saudável”, afirma.

“A submissão para justificar a violência não tem base bíblica”

Ele explica que, em muitos casos, trechos da Bíblia são usados para justificar atos de opressão ou abuso, especialmente contra as mulheres. “Certas leituras podem levar a uma interpretação equivocada de superioridade de gênero. Mas a submissão para justificar a violência não tem base bíblica”, defende Patrick.

Sobre o homossexualismo, comumente alvo de críticas de líderes religiosos e dos políticos da bancada evangélica, Patrick diz que é preciso mudar esta polarização de “evangélicos versus gays”. Para ele, violência e intolerância são inaceitáveis, sejam por racismo, machismo, xenofobia ou homofobia.

Arquivo pessoal

Morgana é secretária-executiva da rede Fale, união de grupos evangélicos que promove a justiça social

A favor de um Estado laico

A missionária Morgana Boostel, 26 anos, também se considera uma evangélica progressista. Ela é secretária-executiva da Rede Fale, uma organização internacional ligada a várias congregações evangélicas, que atua em campanhas contra injustiças sociais. Em março deste ano, a Rede publicou uma carta aberta, assinada por 173 pastores e líderes evangélicos, se posicionando contra a permanência de Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM). Dezenas de comentários na própria página da rede rechaçaram a opinião dos pastores.

“Todos devem ter os direitos garantidos, independentemente da sua história ou trajetória familiar”, defende.

Evangélica desde criança, ela já frequentou a igreja Batista e hoje é membro da Comunidade Anglicana Neemias, na cidade de Vitória (ES). Morgana defende fervorosamente a liberdade de crença e se mostra contrária à intervenção da Igreja em ações do governo. “Estado laico não é a ausência de elementos de fé, mas a possibilidade de expressá-la da forma que cada um considere importante”.

“Estado laico não é a ausência de elementos de fé, mas a possibilidade de expressá-la da forma que cada um considere importante”

Para ela, assim como a opção religiosa, todas as escolhas devem ser respeitadas. Cada um é responsável por decidir o que achar melhor para a própria vida, até mesmo quando se trata de questões sexuais. “É inadimissível qualquer tipo de violência contra homossexuais. Isso inclui o preconceito, pois [o preconceito] incita a violência”.

 

Arquivo pessoal

Elias, comentarista esportivo, é ligado a movimentos progressistas desde a adolescência

Em defesa da diversidade

A igreja não consegue lidar com este cenário multifacetado. (…) Quem não estiver dentro de um modelo preestabelecido fica de fora”

O comentarista esportivo Elias Aredes Junior, 40 anos, sempre foi de família evangélica. Ainda adolescente, aprendeu com os tios a questionar os valores pregados nas igrejas que sempre frequentou. “Comecei a despertar para temas de justiça social e igualdade, o que me levou a participar ativamente de movimentos estudantis”, conta ele, que hoje também frequenta reuniões e encontros do Movimento Evangélico Progressista.

Elias, que faz parte de uma igreja na cidade de Campinas (SP), considera boa parte da comunidade evangélica bastante conservadora. “Muitas vezes, a igreja não consegue lidar com este cenário multifacetado. E isso não é bom porque não contempla a diversidade. Quem não estiver dentro de um modelo preestabelecido fica de fora”, diz.

Ele cita um exemplo que ouviu de um pastor em outra denominação religiosa, que frequentava anteriormente. Durante um culto, o líder disse que, ao ver uma passeata gay, teve vontade de jogar o carro contra a multidão. “Achei aquilo horrível. Posso não concordar com a conduta gay, mas o Estado tem a obrigação de assegurar-lhes todos os direitos, inclusive o de manifestação”, opina.

Para Elias, o problema de lidar com a diversidade vai além da questão gay, incluindo também as novas formações familiares. “Vi vários casos de preconceito contra mães solteiras. Então, quando uma mulher é solteira ou separada, ela não pode ser considerada família pela igreja?”, questiona.

Para mudar este cenário e promover a inclusão, Elias acredita que cabe aos próprios evangélicos lutar pelo que acreditam e “adotar” líderes e representantes que estejam mais de acordo com o perfil de cada um. “O pastor da igreja que frequento é aberto ao diálogo e respeita o que eu penso. Uma nobre e gratíssima exceção neste cinturão ditatorial existente na comunidade evangélica brasileira”, afirma.

Fonte: http://delas.ig.com.br/comportamento/2013-05-23/os-evangelicos-progressistas.html

Dia Internacional da Mulher terá palestra de Dom Mauro Morelli

Dom Mauro Morelli será atração em evento para as mulheres Foto: Marcelo Carnaval / O Globo - Extra

A Unigranrio de Duque de Caxias, nesta quinta-feira, das 19 às 21h, o evento “Cidadania no feminino”, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. Dom Mauro Morelli, bispo emérito da Diocese do município e presidente do Conselho de segurança alimentar e nutricional sustentável de Minas Gerais (Consea-MG), será uma das atrações deste ciclo de palestras e de atividades de prevenção à saúde.

 

O bispo abordará o tema “Segurança alimentar e nutrição sustentável no núcleo familiar”. À tarde, o público poderá participar de serviços de orientação à saúde da mulher, dicas sobre hábitos de promoção e proteção da saúde, além de oficina de moda. Entrada franca.

 

Palestras

 

Dom Mauro explicou que em sua conferência discorrerá sobre o exercício da cidadania feminina, com ênfase em saúde, alimentação e nutrição. Edeusa de Souza Pereira, professora de Enfermagem da Unigranrio, abordará a trajetória da mulher através dos tempos, sob o tema “Cidadania feminina”. Edeusa vai falar das guerreiras anônimas e daquelas que fizeram parte da história. O longo percurso de lutas que as mulheres protagonizaram até hoje mostra que, atualmente, não há mais atividade da qual elas estejam excluídas. Mesmo assim, apesar dos grandes avanços, as mulheres ainda lutam por equivalência de salário e mais oportunidades de empregos.

 

Na parte da tarde haverá dicas de saúde e oficina de moda. Professores e alunos de Enfermagem da Unigranrio darão orientações para a Saúde da Mulher, no pátio principal do campus I, que fica na Rua Professor José de Souza Herdy 1.160, bairro 25 de Agosto, em Duque de Caxias.

 

 

Fonte: http://extra.globo.com/noticias/rio/baixada-fluminense/dia-internacional-da-mulher-tera-palestra-de-dom-mauro-morelli-4251961.html

 

Homenagem do Caxias de Cara Nova às mulheres no 8 de março

Vídeo produzido pelo Movimento Caxias de Cara Nova em homenagem às mulheres. Direção de Tadeu Lima. Participação de Carla de Andrade Couto, Ivanete Conceição da Silva e Vera do Egito.

Vamos juntos!

24 de fevereiro de 2012: 80 anos da conquista do voto das mulheres

Sônia Mascaro Nascimento

Leolinda de Figueiredo Daltro.

Hoje, dia 24 de fevereiro de 2012, comemoramos uma importante conquista da mulher brasileira, o direito ao voto, um dos primeiros passos em nosso país para o reconhecimento da igualdade entre homens e mulheres.

Apesar do movimento pelo sufrágio feminino ter tido início na década de 1910, quando a professora Leolinda de Figueiredo Daltro fundou a “Junta Feminina Pró Hermes da Fonseca”, apenas a partir de 1930 essas reivindicações tomaram corpo. Nesse contexto, Getúlio Vargas, no decreto de 24 de fevereiro de 1932, institui o Código Eleitoral Brasileiro, cujo artigo 2º disciplinava como eleitor o cidadão maior de 21 anos, sem distinção de sexo.

Mesmo com o baixo alistamento feminino ocorrido na época, considerando que não havia obrigatoriedade de voto para as mulheres, é inegável o grande passo dado Código Eleitoral de 1932 para a igualdade política entre os sexos.

A presente data é um marco e deve ser usada para refletirmos sobre o papel da mulher no Brasil hoje, em pleno século XXI.

Incontestável que tivemos grandes avanços, tanto legislativos quanto sociais, no reconhecimento de homens e mulheres como iguais. Nossa Constituição, por exemplo, afirma essa igualdade, além de rechaçar qualquer tipo de discriminação, incluindo a de gênero, e de garantir o voto universal.

Entretanto, apesar da igualdade formal entre os sexos, há ainda muito que se lutar até conquista de uma real e plena igualdade da mulher em relação ao homem.

No Brasil, o machismo ainda possui muitas faces veladas. No mercado de trabalho, por exemplo, dados de 2011 do IBGE mostraram que as mulheres ainda ganham 28% a menos que os homens, exercendo as mesmas funções. Os índices de desemprego também demonstram desigualdade, pois estão em 5,3% para homens brancos, mas em 12,5% para mulheres negras (dados de 2009 do IPEA). Sem contar que os afazeres domésticos e o cuidado com os filhos e idosos ainda recaem predominantemente sobre as mulheres.

Também na política pode ser notada a desigualdade. Mesmo tendo elegido uma Presidenta da República, o Brasil conta hoje com apenas 8,9% de mulheres no Congresso Nacional, 12% nas Assembleias Legislativas e nas Câmaras Municipais, segundo dados o Governo Federal. Isso coloca o Brasil na 141ª colocação sobre presença de mulheres na política, num ranking de 188 países. Em relação à América Latina, o Brasil fica apenas à frente da Colômbia nesse quesito.

Felizmente, a tendência das últimas décadas tem sido de valorização das mulheres e de seu trabalho, assim como de incentivo para que ocupemos cada vez mais papéis de destaque e de comando em nosso país, seja em empresas privadas, seja na área pública, o que demonstra um avanço na luta pela igualdade real entre os sexos, fundamental para uma sociedade justa e democrática.

 

Sônia Mascaro Nascimento é mestre e doutora em Direito do Trabalho pela USP, membro do Instituto Ítalo-Brasileiro de Direito do Trabalho, consultora-sócia de Amauri Mascaro Nascimento e Sônia Mascaro Advogados, ex-conselheira da OAB/SP, ex-Presidenta da Comissão Trabalhista da OAB/SP e autora diversos livros e artigos – soniamascaro@aumaurimascaro.com.br

25 de novembro: Dia Internacional pela não Violência Contra as Mulheres

Data foi estabelecida no Primeiro Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe realizado em Bogotá, Colômbia, em 1981, em homenagem às irmãs Mirabal

Las Mariposas, como eram conhecidas as irmãs Mirabal – Patria, Minerva e Maria Teresa – foram brutalmente assassinadas pelo ditador Trujillo em 25 de novembro de 1960 na República Dominicana. Neste dia, as três irmãs regressavam de Puerto Plata, onde seus maridos se encontravam presos. Elas foram detidas na estrada e foram assassinadas por agentes do governo militar. A ditadura tirânica simulou um acidente.

Minerva e Maria Teresa foram presas por diversas vezes no período de 1949 a 1960. Minerva usava o codinome “Mariposa” no exercício de sua militância política clandestina.

Este horroroso assassinato produziu o rechaço geral da comunidade nacional e internacional em relação ao governo dominicano, e acelerou a queda do ditador Rafael Leônidas Trujillo.

Lei Maria da Penha
Embora tenha avançado em relação à antiga lei da cesta básica, essa lei não garante de fato a punição ao agressor, assim como não garante os serviços essenciais à mulher que sofre agressão, como casas abrigo, creches, assistência médica e psicológica, centros de Referência com profissionais capacitados e estabilidade remunerada no emprego. As consequências disso já podem ser conferidas. Segundo o Conselho da Mulher do Distrito Federal, o número de denúncias caiu, mas não porque diminuiu a violência, mas porque as mulheres se sentem mais vulneráveis diante dessa lei.

Além disso, não vemos uma política específica e, muito menos, crescer as verbas destinadas ao combate á violência contra a mulher em Duque de Caxias.

#Atividades:

> Amanhã, sexta, 25/11/2011, às 6 da matina estaremos panfletando na rodoviária do Shopping Center, Centro de Duque de Caxias.

> Sábado, 26/11/2011, Consulta Popular com lembrança do dia 25 de novembro, a partir das 9h, na Estátua do Zumbi, Calçadão de Caxias, esquina da Avenida Nilo Peçanha com Rua José de Alvarenga, Centro, Duque de Caxias.

Notificar violência doméstica e sexual em hospitais e escolas agora é obrigatório

Fonte da imagem: Getty Images

Profissionais das áreas de Saúde e Educação estão obrigados a avisar as secretarias municipais e estaduais sobre qualquer caso de violência sexual identificado. A notificação compulsória consta daPortaria 104 do Ministério da Saúde, publicada no dia 26 de janeiro.

Com a inclusão dos casos de agressão doméstica e sexual, o texto agora é composto por uma lista de 45 itens, no qual constam doenças, agravos e eventos selecionados de acordo com critérios de magnitude, potencial de disseminação, transcendência, vulnerabilidade, disponibilidade de medidas de controle e compromissos internacionais com programas de erradicação, entre outros fatores.

A Lei 10.778, de 2003, no entanto, já estabelecia a obrigatoriedade de notificação de casos de violência contra mulheres atendidas em serviços de saúde públicos ou privados.  O artigo 13 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) também prevê que os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais. O artigo 245 do ECA estabelece multa de até 20 salários para o médico, professor ou responsável por estabelecimento de atenção à saúde e de ensino fundamental, pré-escola ou creche que não comunicar à autoridade competente os casos de  suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente. No caso de reincidência o valor da multa é dobrado.

“A inclusão da agressão sexual na lista de notificações obrigatórias reforça a legislação vigente e dá maior visibilidade ao problema da violência física e psicológica”, diz Itamar Gonçalves, coordenador de programas da Childhood Brasil. “A denúncia deve ser feita quando crianças e adolescentes estão em risco ou já em situação de violência sexual, com base em suspeitas ou evidências bem fundamentadas”.

As notificações podem ser realizadas por telefone ou comparecendo pessoalmente ao órgão competente – conselho tutelar, delegacia especializada, serviços de ajuda como SOS Criança ou Disque Denuncia , ou enviando por escrito uma ficha padronizada na internet. Pode também ser solicitado atendimento no hospital ou escola (caso não seja possível ir até o órgão competente para efetivar a notificação de suspeita ou ocorrência de abuso). A denúncia pode ser realizada de forma declarada ou sigilosa, quando a pessoa prefere não ter sua identidade revelada.

Fonte: http://www.childhood.org.br/

Palestra: violência doméstica contra a mulher


Palestra: Violência Doméstica Contra Mulher
com a Dra. Lekissandra Gianis
Sábado, 16/04/2011, às 19h.
Igreja Pedra Viva – Figueira – Duque de Caxias- RJ

Abordagem principal:
O ciclo da violência (psicológica, física, sexual, moral ou patrimonial),
Construção da violência,
Doenças psicossomáticas,
Principais dificuldades encontradas para romper a violência,
Como identificar um possível agressor.

Não perca esta oportunidade.
Local: Rua Demétrio Ribeiro, 01
Figueira, Duque de Caxias- RJ
Próximo ao Colégio Frei Henrique.

8 de março – Meu lado mulher – Frei Betto

Mulheres, Di Cavalcanti.

Meu lado mulher incomoda-se de receber homenagens num único dia do ano – 8 de março -, enquanto meu lado homem se farta com 364 dias. Talvez se faça necessária esta efeméride, dor recente de uma cicatriz antiga. Porque se vive numa sociedade machista: matrimônio – o cuidado do lar; patrimônio – o domínio dos bens.

 

O marido possui a casa, o carro e a mulher, que incorpora ao nome o da família dele. A casa, ele exige que se limpe todo dia. O carro, envia à oficina ao menor defeito. À mulher, ser polivalente, cabe o dever de cuidar da casa, dos filhos, das compras e do bom-humor do marido, que nem sempre se lembra de cuidar dela.

 

Meu lado mulher nunca viu o marido gritar com o carro, ameaçá-lo ou agredi-lo. Nem sempre, entretanto, ela é tratada com o mesmo respeito. Ele esquece que marido e mulher não são parentes, são amantes. Ou deveriam ser.

 

Na Igreja Católica, os homens têm acesso aos sete sacramentos. Podem até ser ordenados padres e, mais tarde, obter dispensa do ministério e contrair matrimônio. Toda a hierarquia da mais antiga instituição do mundo é de homens. O que seria dela e deles se não fossem as mulheres?

 

As mulheres, consideradas pela teologia vaticana um ser naturalmente inferior, só têm acesso a seis sacramentos. Não podem receber a ordenação sacerdotal, embora tenham merecido de Jesus o útero que o gerou; o seguimento de Joana, de Susana e da mãe dos filhos de Zebedeu; a defesa da mulher adúltera; o perdão à samaritana; a amizade de Madalena, primeira testemunha de sua ressurreição.

 

Meu lado mulher tem pavor da violência doméstica; do imbecil que diz bobagens quando a garota passa; do pai que assedia a filha, jogando-a nas garras da prostituição; do patrão que exige préstimos sexuais da funcionária; do marido que ergue a mão para profanar o ser que deu à luz seus filhos.

 

Diante da TV ou de uma banca de revistas, meu lado mulher estremece: cala a boca, Magda! Ela é a burra, a idiota que rebola no fundo do palco, mergulha na banheira do Gugu, expõe-se na casa dos brothers, associa-se à publicidade de cervejas e carros, como um adereço a mais de consumo.

 

Meu lado mulher tenta resistir ao implacável jogo da desconstrução do feminino: tortura do corpo em academias de ginástica; anorexia para manter-se esbelta; vergonha das gorduras, das rugas e da velhice; entrega ao bisturi que amolda a carne segundo o gosto da clientela do açougue virtual; o silicone a estufar protuberâncias. E manter a boca fechada, até que haja no mercado um chip transmissor automático de cultura e inteligência, a ser enxertado no cérebro. E engolir antidepressivos para tentar encobrir o buraco no espírito, vazio de sentido, ideais e utopia.

 

Meu lado mulher esforça-se por livrar-se do modelo emancipatório que adota, como paradigma, meu lado homem. Serei ela se ousar não querer ser como ele. Sereia em mares nunca dantes navegados, rumo ao continente feminino, onde as relações de gênero serão de alteridade, porque o diferente não se fará divergente. Aquilo que é só alcançará plenitude em interação com o seu contrário. Como ocorre em todo verdadeiro amor.

 

Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, é escritor, autor de mais de 50 livros, muitos deles traduzidos para várias outras línguas e vencedores de prêmios, dentre eles dois Jabutis e um Juca Pato. Estudou jornalismo, antropologia, filosofia e teologia. É assessor de movimentos sociais. Recebeu várias homenagens, no Brasil e no exterior, por sua luta em prol dos direitos humanos.